6 de janeiro de 2011

(des)toada


eu, que sempre fui tieti de Chico
ouvindo suas profecias e lamentos em muitas vozes
a ponto de beber um cale-se de vinho na ceia
deveria saber que um retrato em branco e preto
raramente fica apenas no soneto

5 de janeiro de 2011

enseada


caminhava pela areia lisa e sem pedras da praia
e firmava o olhar no horizonte a sua frente
morada do sol, a se esconder atrás do morro de pedras
fazendo sombras compridas onde as ondas vinham quebrar

os dela eram tamancos de madeira do verão de outrora
mas seus pés segiam nus, num andar cadenciado
marcado pelo bater constante das sandálias
que lhe pendiam displicentes das mãos morenas

a brisa soprava forte em seus cabelos
deixando em desalinho o penteado, o vestido
mas também a sua mente que, distante
vagueava à lembrança de uma promessa de outro carnaval

clac-clac-clac-clac...

ela deveria ser a unica moça sozinha na enseada
a marchar em linha reta, em direção ao poente
com os olhos fixos na espuma que lhe lambia os pés
e o peito oco, ressoando uma canção de amor

clac-clac-clac-clac...

os pulmões ela enchia da maresia úmida e salgada
e levantava o rosto para o céu, para observar as garças 
que, na maré vazante e com o sol baixo no horizonte
rasgavam a água num vôo rasante para pescar

o sorriso ela ofertava a crianças e casais
e as mãos livres ela batucava ao longo do corpo
a fingir de percussão e harpa
num dueto que apenas a sua alma ouvia

não deixava pegadas nem trilha
pois as ondas logo vinham beber em seus rastros
e fazer da presença dela naquele porto uma ausência
como o barco à deriva, inimigo do cais

clac-clac-clac-clac...

ela deveria ser a unica moça triste na enseada
onde os risos, a cantoria e os copos faziam festa
para aquela gente eufórica, com fome de celebrar
onde a ninguém seria permitido sucumbir à saudade

clac-clac-clac-clac...

fixou os olhos na bola vermelha do sol
sentindo-os arder e marejar
e achou impróprio para alguém, à beira-mar
se permitir salgar o rosto sem o refresco de um mergulho

perdeu de vista o porto para aonde deveria retornar
e parou de contar as tantas vezes em que olhou para trás
esperando pelo resgate que ela sabia não existir
como sentia inexistentes as cordas, os nós e o recomeço

a ela só faziam companhia o eco das garças
e o chamar soporífero das marolas, pra lá da arrebentação
onde ela imaginava, mais por otimismo do que por intuição
morarem os sonhos antigos e o querer perene da estiagem 

clac-clac-clac-clac...

ela deveria ser a unica moça a jogar com a sorte na enseada
porque havia caminhado tanto, de tão longe
para simplesmente não estar ali
para inadverditamente desejar voltar

clac-clac-clac-clac...

chegou ao final da praia, onde a areia abraçava o morro
para aonde ela não podia mais caminhar
e achou impróprio, para alguém tão longe de casa
esperar pela mensagem do náufrago numa garrafa

pois não haveria mensagem, não poderia haver 
não haveria sinal luminoso, ela não poderia esperar
nada que lhe redesenhasse o destino, há muito traçado
e atado a seus pés, tal qual a âncora de navios assombrados 

voltou as costas para o sol, que ainda resistia à chegada da lua
viu desenhada na areia a silhueta negra, longa como o tempo
e fechou os olhos para o norte, tampou as narinas para o vento
para poder retornar ao cais, peixe fora d'água, a esmorecer

clac-clac.
tic-tac-tic-tac-tic-tac...

4 de janeiro de 2011

quisera

"Dancer in Black", Fabian Perez

já quis ser bailarina ousada
cor, aroma e fruta
quis ser nuvem vazada
por um raio do poente

quis boiar em mar-alto
de olhos fechados, no sereno
e ter a sensação de andejar
numa via-láctea individual

já quis ser balão de hélio
mais leve que o vento e a pluma
ascender, colorir e inflar
para ver o mundo com olhos de formiga

quis ser âncora firme
forjada em cracas milenares
e manter a nau em curso
na mais violenta das vazantes

já quis ser pena de pavão
colorida e exótica
a enfeitar o chapéu-coco austero
de um burguês incrédulo

quis ser pai, filho, mãe e amante
num quadrilátero impossível
em sua obviedade latente
quando o espaço é tão exíguo, sempre

já quis ser doce gelado
queijadinha, figo em compota
quis ser canela, cravo e pimenta
e uma pitada de sal

mas o nó do desejo é que
quando já se quis muito
ou ainda se quer tanto
pode-se estancar no terreno do quisera

e não saber mais o que se é
ou o que se pode ser
nem o que se deveria ser
no segundo suspenso de um suspiro

              ...pff...

a exalar o bem de um mal-me-quer

3 de janeiro de 2011

(re)verso






pior do que a tristeza
mais doloroso do que a solidão
e mais assustador do que o vazio
é o medo da felicidade

1 de janeiro de 2011

feliz ano, velho

Em mais um réveillon - sim, ele sempre acontece, não importa o quanto você se enclausure dentro de si mesmo - o que pode ser mais inconveniente, doloroso e martirizante, além de testar nossa resistência ao extremo: enfrentar a passagem de ano, com direito a lentilhas, branco, azul ou amarelo e sete tsunamis para pular SOZINHO, ou toda a mesma, velha e boa pantomima COM OUTROS SERES HUMANOS? Tome-se, por exemplo, o cliché máximo do "adeus, ano-velho" na casa de praia. Não importa em qual litoral você decida espichar seu corpo cansado, após cinco horas de engarrafamento e muito biscoito de polvilho e cerveja de quinta para espantar o calor e o mau humor; se o destino para a passagem de ano for a casa de praia, tanto sozinho quanto acompanhado você terá alguns contratempos a enfrentar mesmo antes de os primeiros fogos explodirem na orla.

Primeiro cenário: você, sem qualquer acompanhante de natureza romântica, nem filhos e muito menos cachorros ou papagaio. Viajar para o litoral sozinho pode lhe dar a impressão, à primeira vista, de que você está em um daqueles cursos de imersão para indivíduos mal tratados pela vida, que decidem sair numa viagem de auto-descoberta do tipo “comer, rezar, amar” e chegar à triste conclusão de que os restaurantes são caros e super lotados, os templos, muito aquém da sua necessidade de correção espiritual e amar... Bem, amar na virada do ano, com Sidra Cereser manchando o seu figurino branco e arruinando seu penteado à la Beyoncé pode ser bastante utópico.

Há diversas maneiras de se fortalecer individualmente. Há os que pulam de pára-quedas; outros, embrenham-se na Floresta da Tijuca por cinco dias, tentando sobreviver à praticamente tudo com apenas um iPhone como munição; alguns trabalham quinze horas por dia, ganham rios de dinheiro e, como um teste de resistência, não gastam absolutamente nada; tem gente que, para se fortalecer até o último fio de cabelo, jura fidelidade até que a morte os separe – o que, em última análise, tem o mesmo peso de assumir uma vida de celibatário abertamente. Mas o ápice da auto-afirmação, incontestavelmente, é viajar sozinho no réveillon. Você freqüenta cada um dos restaurantes super lotados, caminha calmamente pela orla sob o escaldante sol tupiniquim, toma cinco ou trinta picolés de limão, visita os shoppings locais, bebe bastante água de coco, estoura seu limite em todos os seus dez cartões de crédito e... Aleluia! Tudo isso plena, consciente e fortemente solitário.

Quer dizer, há maneira melhor de mostrar a si mesmo e ao mundo toda a sua capacidade de regeneração, auto-preservação e persistência do que estar absolutamente só no litoral, assistindo ao espetáculo dos fogos e aos abraços e beijos dos convivas? Claro, você pode até sentir uma ou outra ocasional pontada de inveja ou auto-comiseração diante da esfuziante demonstração de alegria e união dos demais vinte e cinco milhões de turistas, mas, enfim. Quem se importa com a solidão do réveillon quando se é tão forte e resistente quanto o próprio Rambo, sempre à espera do ataque de um inimigo emboscado?


Segundo cenário: Rio-Manilha, viagem iniciada às cinco e meio da madrugada, bagageiro lotado com malas, mochilas, isopores e uma prancha de surfe, você ao volante, sua esposa e o caçula no banco do carona, seus dois outros filhos discutindo sobre qual música você deveria deixar tocar no banco de trás e, com um palmo de língua para fora devido ao calor de Iguaba Grande, o Totó, confortavelmente instalado no colo da sua sogra, que cochila docilmente sob o efeito miraculoso de um comprimido de Dramin e outro de Rivotril. Como você decidiu comemorar a virada no litoral com toda a sua família, a melhor opção de acomodação é alugar uma casa de cinco quartos para a temporada. Desnecessário dizer que a sua cunhada do interior de Minas, juntamente com o marido e seus três filhos adolescentes, mais cinco amigos do seu filho pré-adolescente e o namorado da sua filha de trinta e cinco anos, que ainda não tem emprego fixo, também vêm para o réveillon. Você não perde a calma em momento algum. Afinal, além dos cinco quartos, todos trazem colchonetes extras para evitar o ambiente de “albergue” não é mesmo? Além do mais, depois de mais de oito horas de engarrafamento e muitos pacotes de Biscoito Globo na Avenida Brasil, seu humor está de fato nas alturas por você ter conseguido chegar à praia antes do espetáculo dos fogos.

Então, uma vez na orla, trajando sua melhor sunga da estação passada, você precisa ir ao supermercado para comprar as provisões que sua mulher, já meio emburrada, vai guardar na geladeira. Mas o mau-humor dos banhistas nas filas quilométricas dos únicos dois caixas e o ar bolorento e abafado do estabelecimento comercial não são nada em comparação à sublime sensação de completude que invade seu subconsciente quando você, com os olhos marejados de emoção, inicia a contagem regressiva para o ano-novo, enquanto observa sua sogra pular as sete ondas a despeito da artrose no joelho.

Terceiro cenário: você, já tendo experimentado as duas formas possíveis de viajar para o litoral e dar boas vindas a mais um ano não muito diferente do que se passou, encontra um portal, uma fenda no espaço-tempo que lhe permite se encontrar consigo mesmo, na situação oposta a que entrou. Em outras palavras, se você adentrar essa hipotética e metafísica passagem sozinho, transbordando de amargura e auto-piedade por não ter uma esposa, filhos, um cachorro e uma sogra bonachona, encontrará do outro lado você mesmo, na versão exaurida do homem de família que dirige horas para levar os parentes para a casa de praia e tenta apartar as eventuais e inevitáveis discussões à mesa da ceia. Vocês se entreolham desconfiados, como se fossem meros desconhecidos. Mas, então, num segundo olhar mais atento, descobrem que são a mesma pessoa, vivenciando uma situação única, alegórica e ideal, em que podem, num momento em que a areia da ampulheta da vida para de correr e é possível contrariar Heráclito, atravessar as mesmas águas de um mesmo rio duas vezes. Se nesse espaço ideal o eterno retorno de Nietzsche fosse possível, dois homens diametralmente diferentes e, ainda assim, dois lados de uma mesma moeda, poderiam se olhar nos olhos e ver, refletidos neles, as frustrações que escondem debaixo do tapete do dia a dia, as decepções, os sonhos soterrados, a crueza acachapante dos dias solitários e a rotina sufocante da individualidade cerceada. Se fosse possível a vocês, dois homens diferentes e, no entanto, o mesmo homem, apertarem-se as mãos, talvez uma estrela perdida no cosmo transmitisse, num passe de mágica incompreensível, o melhor e o pior de suas vidas de um para o outro. E talvez vocês percebessem, nessa transmutação surreal, que não se ganha nem se perde muito do que já havia se encrustrado em suas almas.

Então a epifania do réveillon acaba e o portal se fecha. Você, solitário e amargo, senta-se na areia para observar o entardecer que tinge de púrpura o horizonte anil. Pensa que daria toda a sua liberdade para ter uma esposa, dois filhos adoráveis, uma sogra amorosa e um cachorro fiel. Do outro lado da orla você, cansado da balbúrdia dos parentes distantes e das exigências dos filhos e da esposa, recosta-se à cadeira de um quiosque para observar o mesmo por de sol, o mesmo púrpura que hipnotiza, encanta e entristece. E pensa que daria toda a segurança arduamente conquistada e marinada em tédio pela liberdade dos seus tempos de lobo solitário.

Claro que esse tipo de dilema só nos atinge na virada do ano. Afinal, é nessa época que prometemos a nós mesmos, finalmemte, realizar aquele sonho de dez anos atrás, começar aquele regime que adiamos desde o nascimento do primeiro filho, comprar aquele Camaro amarelo, beijar aquela bela morena do apartamento vizinho, ter mais um filho, comprar um Cocker Spaniel, começar as aulas de violino, pedir o divórcio, adotar um filho, pedir a mão da sua namorada de infância em casamento, comprar uma bicicleta, nunca mais viajar para o litoral em alta temporada...