A agenda sócio-antropológica do momento, revestida de pinceladas políticas tímidas, ainda que contumazes, tem-se ocupado do fenômeno do bullying. O termo deriva do substantivo "bully" que, em inglês, quer dizer "valentão". Ainda hoje a palavra é utilizada em sua acepção original: "valentão", aqui, não designa adultos como o Rambo, nem o Capitão Nascimento - muito embora os exemplos anteriores não passem de representações caricaturais de homens possivelmente reais. O arquétipo do "bully", já interiorizado por povos anglo-saxões, suscita a criança em fase escolar, independentemente da idade e do gênero, que humilha e agride verbal ou fisicamente seus colegas mais fracos, menores, mais tímidos e com a crueldade da infância menos aflorada. O problema de um assunto tão antigo quanto as montanhas cair no gosto da mídia, do público e da agenda política é que, como se banhado por uma luz de pretensa revelação, tivesse acabado de surgir aos olhos e à consciência dos pais inexoravelmente preocupados com o bem-estar de seus filhos; do corpo docente engajado; de psicólogos, intelectuais e teóricos ávidos por debater o assunto e, como a caçamba que segue a corda, lucrar com a publicação de livros de auto-ajuda; de ONG's conscienciosas que prestam extenso auxílio às vítimas de bullying, preparando-as para se adaptar à realidade e ao sistema e para voltar ao mercado de trabalho e à dignidade de uma vida social plena.
Debater, televisionar e publicar sobre bullying tornou-se algo tão corriqueiro que a palavra, originalmente estrangeira e, por isso, grafada em itálico, não o é mais: agora, basta o termo bullying. O termo incorporou o léxico tupiniquim; despensa o italicismo na grafia e as aspas. E entre a exaustiva utilização da palavra - e do conceito imbuído por ela - e a queda-livre em direção ao universo paralelo do kitsch fundamental, já não há mais uma linha divisória. Na ausência de um portal para segregar informação categorizada da exploração aleatória de um fenômeno que jamais chegou a ser novidade, o bullying transformou-se em quadro de estatísticas, pauta obrigatória de revista semanal, clichê máximo para a justificativa de todo mal envolvendo adolescentes em escolas pobres, ricas, paupérrimas e milionárias. Sugerir o bullying à revelia - e com vistas ao planejamento eleitoral, à agenda de psicólogos, à venda de periódicos e à audiência de programas de TV por assinatura - como causa e meio para a violência latente da sociedade adulta não é apenas uma analogia grosseira; é uma prova cabal de que nós, eleitores, leitores, espectadores e pais, somos considerados pelo Establishment como uma massa amorfa de acéfalos cegos, a babar sobre as gravatas.
Crianças, pré-adolescentes e adolescentes não estão apenas em fase de formação de caráter, valores, ética e crenças, mas, principalmente, num momento de desenvolvimento de estruturas cerebrais que, a posteriori, são responsáveis pelas condições cognitivas que denominamos de "caráter". Crianças são, por definição e natureza, seres com entendimento empático rústico, uma vez que o hipotálamo, região do cérebro responsável por tal habilidade, encontra-se em desenvolvimento até, em média, os 16 anos de idade. Entende-se por empatia a resposta afetiva vicária a outras pessoas, ou seja, a resposta afetiva apropriada à situação de um semelhante, e não à própria situação. Em outras palavras: empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreender a realidade pela perspectiva do outro e experimentar reações emocionais por meio da observação alheia. Até os 16 anos, os seres humanos são, neuromorfologicamente, egocêntricos, suscetíveis a variações abissais de humor e pouco, ou nada empáticos. Adultos plenamente formados que apresentem tais características entram para o rol dos sociopatas - condição que pode variar da mais leve tendência (como a do indivíduo que prejudica colegas de trabalho sem piedade, para alcançar a promoção almejada) até o grau máximo (vide assassinos em série, estupradores e franco-atiradores em escolas).
Nem toda criança arranca asas de besouros, subjuga cães dóceis, furta balas da mercearia e humilha os colegas mais fracos. Há os valentões, claro. Em regiões rurais, antes do êxodo nas década de 1930 e, posteriormente, 1950, quando a molecada descalça precisava caminhar quilômetros para chegar à única escola da região, os bullies eram chamados de "bichos do sereno". Como mencionado anteriormente, o dito "fenômeno" do bullying não tem nada de espetacular e muito menos de novidade. O cenário e os personagens são e sempre foram os mesmos; as coisas apenas mudaram de nome. Nos colégios freqüentados pela classe mais abastada das cidades, assim como em escolas de periferia, jovens mais tímidos e introspectivos sempre foram alvo de chacota daqueles que possuíam costas quentes, bravura juvenil inconseqüente, empatia cognitiva em desenvolvimento ou, simplesmente, potencial incipiente para maníacos do parque e afins. Não há regra, nem receita de bolo aqui; a formação da personalidade infantil, sujeita a fatores genéticos e à influência do ambiente, é uma caixa de pandora: você tem um filho; educa-o da maneira que melhor lhe parece e convém; chega a idade escolar; o rebento lhe dá adeus, merendeira na mão, mochila às costas, lança-lhe um último olhar sobre os ombros antes de tomar o ônibus para a escola. Você acaba de abrir a caixa e a vida de seu filho está apenas começando. Inexistem fórmulas capazes de prever se ele será o valentão da turma ou o cordeiro sacrificado. Mas uma certeza levita sobre os lares e as escolas: haverá sempre "valentões" para xingar, agredir e humilhar, em igual proporção àqueles que serão taxados de "bobalhões", "parvos", "medrosos" e "nerds". Esta é uma das realidades a qual o homem não possui meios de escapar: os fortes (bullies ou não), tendem a se tornar cada vez mais fortes e subir em direção ao topo. Para isso, o contrapeso dos fracos existe. Para o bem ou para o mal, este é o mecanismo de uma sociedade não estratificada em castas.
O que assombra ainda mais do que a covardia dos bullies é o extremismo banhado em justificativas simplórias dos adultos. A liberdade de expressão é linda, um direito irrevogável de sociedades democráticas; eu mesma faço uso dela em cada artigo que publico nesse blog. Entretanto, veicular matérias que associem o atentado à Escola Municipal Tasso Silveira ao bullying, é o tipo de expressão que, uma vez à tona, deveria ser censurada. Como se não bastasse aos veículos de comunicação comparar a tragédia em Realengo com a de Columbine, da mesma forma obtusa como o fariam com uma partida de futebol e outra de rugby, o autor dos crimes, Wellington Menezes de Oliveira, sobe ao púlpito das vítimas como alvo de bullies na mesma escola onde matou 12 crianças a sangue-frio. A tentativa de recriar o ambiente em que Wellington cresceu, humilhado por valentões e, posteriormente, aderindo ao fundamentalismo islâmico, é uma temeridade por parte da imprensa, nesse caso agindo sem qualquer responsabilidade social. Wellington é um sociopata e um assassino e, por essas razões apenas, matou em Realengo. E isso é tudo. Conceder-lhe matérias do tipo "perfil" é um ultraje sem precedentes para os leitores, em especial para as famílias das vítimas, pois suscita um véu de absolvição ao qual ele não tem o menor direito.
Meu filho de quatro anos, assim como eu em minha infância, é alvo de chacotas na escola por causa de seu sobrenome: "Arthur Rohen? Tá roendo o que?" Ele não dá a mínima. Outro dia, um colega ralhou com ele por causa de sua língua presa: "Por que você fala asthim?" Meu filho respondeu que é porque está aprendendo a falar inglês. Numa outra ocasião, ele puxou os cabelos de Luíza, uma menina encantadora, que o adora, e comeu um biscoito Trakinas do coleguinha Daniel, que abriu a boca a chorar. Disse para mim que "foi sem querer". Como ficou na "cadeirinha do pensamento" na escola e ainda ouviu um sermão da mãe em casa, aquela foi a primeira e a última vez que Luíza teve as madeixas puxadas pelo meu filho. Seria razoável pensar que, no mundo encantado da pré-escola de uma cidade de trinta mil habitantes, Luíza, Daniel, meu filho e outras duzentas crianças estejam sendo vítimas de bullies predadores, à espreita do momento ideal para chamar um coleguinha ou outro de "feio", "bobo" e "gordinho"? Aí está o perigo, a armadilha do extremismo e do kitsch.
Há não mais de cinco anos, bullying ainda era grafado em itálico e não fazia parte do vocabulário e do imaginário populares no Brasil. Hoje, tornou-se clichê, figurinha repetida e justificativa para assassinos, delinqüentes e vagabundos que - perdoe, pai, eles não sabem o que fazem - são o resultado direto de bullies na escola e da sociedade capitalista que lhes suprime o direito a melhores condições de vida. O extremismo é perigoso; a relativização dos acontecimentos, também. Mas o discurso pasteurizado, perene e óbvio da Esquerda socialmente engajada é muito mais pernicioso. Para extremistas, recomendo a leitura de "Carrie", de Stephen King, escrito em 1974, ano em que a ebulição do bullying - trocadilhos à parte - ainda estava longe de acontecer. O livro é pequeno - apenas 180 páginas na reimpressão de 1983 - e de leitura ágil, compulsiva e eletrizante. Pergunto-me porque ninguém pensou em marcar uma entrevista com o autor que, na longínqua década de setenta, já vislumbrava a realidade e a "naturalidade" do bullying sem nem ao menos mencionar a palavra.
King afirmou, por ocasião do lançamento de "Carrie", que "a função do terror é levar o leitor ou o espectador a viver o seu nível humano mais primitivo e essencial". O escritor, que antes de abraçar a fama trabalhou como professor em colégios do ensino fundamental nos Estados Unidos, valeu-se de sua experiência e de uma aguda percepção da psicologia dos adolescentes para contar a história da jovem Carietta White, cria única de uma beata histérica, dada a sessões de auto-flagelação, extremismo religioso e espancamento da filha. Carrie tem problemas de ajustamento social, mas deseja ser uma garota comum, como qualquer outra. No entanto, três elementos a impedem de realizar o objetivo primordial de sua vida: a mãe, que a considera maligna e impura; as colegas de escola que, seja por (oops...) bullying ou hipocrisia, contribuem para os abusos que a jovem sofre dos cinco aos 17 anos; e o seu poder de telecinese, liberado pela puberdade e por estados de stress, estes mais do que corriqueiros para Carrie.
Repito: foge-me à compreensão o fato de Stephen King não ter sido convocado para dar a sua opinião sobre o "fenômeno" do bullying no século XXI. Porque o que ocorre em "Carrie" é bullying puro, essencial e de primeira, elevado à enésima potência: a garota se depara com as primeiras regras menstruais no salão de banho da escola e, acreditando estar se esvaindo em sangue, vira alvo de tampões e toalhas higiênicas que as outras lhe atiram. Até então, os xingamentos de que era vítima não pareciam incomodá-la tanto; afinal, Carrie admite que é "estranha", embora não queira sê-lo. A garota é levada ao baile de formatura pelo rapaz mais popular da escola e, para surpresa própria e de todos os presentes, é coroada rainha do baile com ele. Ocorre que uma trama malévola é urdida literalmente nos bastidores do baile para humilhar Carrie: Billy Nolan, um marginal bem retrato por King, e a psicopata mirim Christine Hargensen, derramam dois baldes cheios de sangue de porco sobre a moça, no momento máximo da coroação. Claro que Carrie não hesita em utilizar seus poderes telecinéticos para mostrar aos colegas que não é a idiota que pensam. Quem leu o livro ou assistiu à adaptação para o cinema de 1976, do diretor Brian De Palma, sabe o final.
Pergunto-me se a mãe de Luíza ou a de Daniel e, pior, a Coordenação Pedagógica da escola, seriam tolas o suficiente para acusar o meu filho de bullying - afinal, não se fala de outra coisa, não é mesmo? Porque, particularmente, não ventilo a menor possibilidade de taxar como
bullies as crianças que ralham com o sobrenome do meu filho e com o seu jeito "Romário" de falar. Também não queimo a mufa quando ele chega da escola com um boneco sem braço, fruto de uma amputação malfadada de um coleguinha. E sei que chegará o momento em que o chamarão de "branquelo azedo", assim como de "quatro olhos", se um dia usar óculos, e de "boca de ferro", se precisar de correção ortodôntica. Não vejo como qualquer dessas atitudes, tão banais num ambiente de crianças e adolescentes, possa ser considerada bullying. Mais essencial do que categorizar coisas e fazer ferver um caldeirão sem sopa, é preparar nossos filhos para que estejam acolchoados por sólida auto-estima e para que aprendam o mais importante dos princípios para a convivência em sociedade: o seu limite acaba exatamente no ponto onde começa o do outro.