29 de março de 2011

obsolescer

"Sebastião Marat", por Vik Muniz

Não há prosa mais fácil, abnegada e revigorante do que o papo com um taxista. Fácil porque, no espaço confinado de um carro, é natural que um indivíduo puxe conversa com o outro; abnegada, pois é completamente desprovida de interesse retórico legítimo de ambas as partes; e revigorante porque, num trajeto delimitado entre dois pontos, você pode abordar praticamente qualquer assunto sem o peso da responsabilidade de um reencontro. A conversa de táxi é uma das poucas formas de colóquio que possui, obrigatoriamente, começo, meio e fim, sem pretensões filosóficas ou embates morais. Tudo começa com um aceno para o motorista. Os movimentos seguintes são automáticos: você entra no carro, diz "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite" e informa o destino e a preferência da rota a seguir, hábito que, por sinal, é novidade na praça, garantem os motoristas no tom injuriado do padre que ouve sermão do fiel antes da missa.

O diálogo é conseqüência; normalmente o motorista começa a conversa. Em Belo Horizonte é comum quebrar o gelo, falando sobre o tempo, as nuvens que se acumulam sobre a Serra do Curral e como toda mineira dá, menos a loteria. No Rio de Janeiro fala-se de futebol, atos heróicos envolvendo o Choque de Ordem e a Parada Gay e como os flanelinhas infernizam a vida dos cidadãos motorizados. Em São Paulo até os taxistas fazem networking e, para variar, é sobre negócios e dinheiro que se dialoga. As outras capitais também têm taxistas e eles não perdem por esperar minha visita. Todo bom taxista tem sempre um caso para contar, uma piada de trinta segundos e um resumo explicativo da política local, além de ser um bom ouvinte, se o passageiro for um interlocutor participativo.

Claro que tudo isso é opinião minha. Deve haver muita gente que abomina trocar mais do que meia dúzia de palavras essenciais com um taxista. Eu, ao contrário, sou uma entusiasta do papo de táxi; com motoristas de praça já desabafei segredos que nem um analista seria capaz de ouvir e, deles, já ouvi histórias que valeriam uma antologia. Aliás, alguém já deve ter publicado algo parecido, provavelmente intitulado "Memórias de Adilson, o Rei da Barão de Mesquita", mas devo ter perdido a tarde de autógrafos na Travessa. Digressões e futuros-fracassos literários a parte, jogar conversa fiada fora com um taxista compensa os dez reais mínimos de uma corrida ligeira. Se você for do tipo ausente, fechado e monossilábico ou simplesmente não curtir trocar uma idéia de passageiro para motorista, vai pagar pela corrida com o sentimento cívico insuperável de serviço prestado com discrição e impessoalidade. Se for do tipo comunicativo e não fizer distinção de ouvinte, há de pagar a idêntica quantia e ter o mesmo sentimento urbanóide de serviço prestado, mas, no entremeio, vai se divertir.

Às vezes a prosa engrena de tal maneira que dá pena de chegar ao destino. Foi assim nesse sábado, entre a Gávea e o Leblon, doze reais e oitenta centavos - o chefe fez por doze - e um Santana 2000 com bancos de couro. Puxei o assunto; perguntei se procedia essa história de "fazer diferença" para o passageiro o fato de o taxista estar dirigindo um Santana. De acordo com a SMTR, Secretaria Municipal de Transportes da cidade do Rio de Janeiro, em publicação de janeiro desse ano, os três modelos mais utilizados pela categoria são o Meriva Joy, o Corsa Sedan e o Zafira, todos da Chevrolet.  Há dez anos, a mesma lista era encabeçada pelo Volkswagen Santana, seguido do Astra Sedan (Chevrolet) e do Palio Weekend (Fiat). Quando um modelo de carro "emplaca" como táxi, as revendedoras se preparam para uma queda natural nas vendas desse modelo como carro de passeio. É compreensível; se você vai investir num carro zero quilômetro que sai da concessionária com uma depreciação de mercado que pode chegar até 25% ao final do primeiro ano, é melhor que esse carro tenha um pouco da sua "personalidade" e não seja confundido com um táxi:


As fotos do blog "Bizarrices Automotivas", que você confere no site acima, são auto-explicativas com relação a isso.  O problema com o Santana é que, além de ter caído na antipatia do público como "táxi de rodoviária", agora se transformou numa espécie de "espanta-passageiro" para os taxistas que ainda não trocaram seus velhos sedans por carros mais atraentes, modernos, confortáveis e populares entre os clientes. Isso quem me contou foi o taxista da Gávea, credenciado há oito anos e dono de um Santana. O fenômeno aqui é de natureza sócio-cultural, e não financeira ou técnica. Para um taxista dono de um carro mecânica e visualmente conservado e com a manutenção em dia, dirigir um Santana ano 2000 e um Meriva Joy 2010 não faz diferença no retorno financeiro ao final do dia. O que afeta diretamente o lucro líquido de um taxista não é o modelo, nem o ano do carro que dirige, mas o número de corridas efetuadas menos os gastos com combustível, impostos, manutenção e a desvalorização do próprio carro no mercado.

Imagine que você tenha acabado de adquirir uma concessão da Prefeitura para atuar como taxista. Seu primeiro investimento de capital será no veículo, instrumento do seu trabalho. Se optar por comprar um carro zero, que tem o maior valor de depreciação de um bem no mercado, já sairá da concessionária com um prejuízo de até 20% no investimento inicial até o primeiro ano do carro, sem mencionar os gastos extras com seguro, impostos e regularização do automóvel. Por outro lado, se já tiver um carro regularizado ou resolver comprar um usado, que além de ser mais barato, tem valores de seguro e IPVA igualmente menores, seu investimento não sofrerá tanta desvalorização no mercado. Isso acontece porque a partir do quinto ano de uso do automóvel, a desvalorização sofre uma queda, a menos de 10% ao ano, cuja mola central é a alta demanda por veículos usados, graças aos preços mais acessíveis e à conseqüente valorização dos mesmos.

Agora imagine que você esteja na situação do taxista com quem conversei. Ele é dono de um Santana de ano 2000, em bom estado de conservação, regularizado e recém-vistoriado, exerce essa profissão há oito anos e, agora, vem perdendo passageiros porque, em suas palavras, "os clientes rejeitam Santana na praça". Ele admite que alguns colegas contribuem para a má fama do carro, circulando com o mínimo exigido pela SMTR em termos de documentação legal e pouca ou quase nenhuma manutenção mecânica. "Mas são poucos", afirma; carros nesse estado não passam pela vistoria anual do Detran e são rejeitados pelas Cooperativas e Associações. Molas saltando do estofamento, barulhos internos, ar condicionado funcionando mal - ou não funcionando de maneira alguma - escapamento estourado e bancos cedendo sob o peso dos passageiros são pré-requisitos para o chefe mudar de carro, qualquer que seja o carro, Santana ou não.

"Quando chove, passageiro não quer saber que carro você está dirigindo. Pode ser um Fusca ou uma Brasília caindo aos pedaços; debaixo d'água, qualquer carro tá valendo", contou-me o taxista dessa história. Ele foi obrigado a dispensar uma cliente de Ipanema semana passada. A mulher entrou e, ainda há quilômetros do destino, começou a fazer as seguintes perguntas retóricas: "Esse seu banco é meio baixo, não é?"; "Esse carro é ultrapassado, você não acha?"; "Bom mesmo é andar de Meriva". Meu amigo não pensou duas vezes; parou o Santana, pediu para a mulher descer, não cobrou a corrida e ainda se permitiu trocar alguns desaforos com a ex-passageira e recém-adquirida inimiga. Achei digno.

De acordo com o portal da Receita Federal na internet, "a depreciação de bens do ativo imobilizado corresponde à diminuição do valor dos elementos ali classificáveis, resultante do desgaste pelo uso, ação da natureza ou obsolescência normal". Define-se como obsoleto tudo que é ultrapassado, arcaico, antiquado e fora de moda. O Santana obsolesceu; ainda é um carro confiável, do tipo que, se bem cuidado, não deixa o motorista na mão. Foi tão popular há alguns anos que caiu no clichê e daí rolou ladeira abaixo no gosto e na simpatia do público. Ainda que, tecnicamente, possua uma baixa quota de depreciação no mercado, o carro virou um rótulo, uma metonímia: "santanão" é carro de taxista, de velho, de gente obsoleta como ele.

Meu pai começou a me ensinar a dirigir numa Caravan verde; eu tinha onze anos. Naquela época podia-se tudo, só não podia qualquer coisa. Um dia embaracei-me com as marchas, olhei para o câmbio e estourei um pneu no meio-fio. Então, passamos a praticar num Fusca, que era menor, mais fácil e mais barato. Aos 16 anos, ele me deixou dirigir seu Santana GLS champagne, em que ele e minha mãe sofreram um acidente que mudou o rumo de nossas vidas. Classificar os carros dessa forma também ficou obsoleto e GLS, hoje, aponta para a orientação sexual dos indivíduos. Depois deste, houve outros Santanas, de cores, anos e momentos de vida diferentes. Eu tive dois. O primeiro, azul, teve um fim trágico num outro acidente em que um amigo da família dirigia. O outro, verde, foi furtado três vezes; recuperei-o nas primeiras duas ocasiões. Na terceira, o ladrão levou a melhor. Depois disso, minha mãe ficou cheia de melindres com o carro e disse que ele era "amaldiçoado" na família. Sua superstição não impediu que meu pai comprasse outro Santana, em 2000; não vende nem troca por carro algum e não dá a mínima se há modelos mais modernos e arrojados. Porque meu pai, como o carro e a época em que se podia tudo, também é obsoleto. E é bom que o seja porque, dessa forma, ecoa lembranças de um tempo que ficou nas brumas, preenchendo espaços vazios do presente.

A palavra "obsoleto" casa com a palavra "nostalgia". É nostálgico quem sente saudades de algo relacionado ao passado, ou seja, do obsoleto. Mas o passado, por definição e lógica, não existe. O que subsiste são os laços tênues em que nos agarramos para não dar um adeus final ao tempo que amamos e que, subjetivamente, ainda vive na memória. Esta é a metafísica da obsolescência. Tudo que existe há de cair em desuso e, posteriormente, no esquecimento: carros, computadores, fotografias, cartas manuscritas, livros, roupas, maneirismos, canções, profissões, pessoas, conceitos. Temos plena consciência da fugacidade do tempo e da inexorável superação de um elemento sobre outro, mas não podemos evitar o olhar melancólico para trás. Memória e nostalgia andam de mãos dadas, com a sombra da obsolescência a lhes obscurecer o caminho. Frágeis são os laços do passado, mas eles existem e são perpetuados por escolhas que tomamos, palavras que dizemos, músicas que ouvimos, roupas que vestimos, ideais que defendemos, carros que dirigimos.

Tem gente que nasce obsoleto e vive com uma comichão incômoda de não pertencer, não progredir, não se adequar. Meu amigo taxista comprou um Meriva. O carro novo chega em duas semanas. Ele se cansou de perder clientes que torcem o nariz para o seu Santana amarelo e antiquado, principalmente a galera mais jovem, exigente e moderna. Disse para ele que eu vou na contramão desses: quando preciso tomar um táxi, procuro um Santana. O taxista não verteu lágrimas quando ouviu a minha declaração porque, afinal, é um taxista carioca, "mermão", tá pensando o que? Quando a corrida acabou, ele olhou pelo retrovisor, encontrou os meus olhos e segredou: "tô vendendo meu Santana com o coração partido". Para negar a obsolescência das coisas, das pessoas e da vida, prefiro o "santanão" metonímico que, diferentemente de qualquer outro carro, vem com lembranças intransferíveis de fábrica.

27 de março de 2011

[...entre...]


entre viver no ato e espreitar pela janela
seguir de fato e empacar na contramão
tingir a paisagem e acinzentar os olhos
avançar no ataque e recuar ao solo

[...]

entre a brancura da luz e o véu do breu
a gargalhada compulsória e a lágrima imputada
a avidez dos abraços e a compostura dos olhos
a certeza do senso e a embriaguez dos sentidos

[...]

entre a proa dos mares e o ecoar das estradas
a rebeldia insana e a concessão descabida
o vislumbre entre as cortinas e as portas cerradas

[...]

entre o desejar liberto e o dever omisso
o despedaçar evidente e o soerguer ressentido
fico nos entremeios dos parênteses cavos

24 de março de 2011

do preconceito


Essa canção é antiga, de composição de Billy Brandão e Paulinho Moska. Fez sucesso na abertura de uma novela das oito da Rede Globo, "A Próxima Vítima", de 1995. A melhor e a pior coisa que podem acontecer a um cantor e compositor dito "fora do circuito" da música de alta rotatividade - ou seja, o tipo underground, desconhecido e destituído do poder do "jabaculê" das rádios - é ter a sua música como tema de abertura de uma telenovela da Globo. Também funciona se a canção for tema de um dos personagens principais da trama; foi assim com Oswaldo Montenegro e a sua "Lua e Flor", música de letra e melodia inspiradas pelo barroco mineiro, na época em que o compositor morava na pequena, interiorana e barroca São João Del Rey. A letra é uma poesia de um lirismo simples e belo, que retrata o amor em sua mais romântica e platônica forma: o amante ama mais ao próprio sentimento do que ao objeto de seu desejo. Ocorre que "Lua e Flor" embalou o romance igualmente platônico de Sassá Mutema, um bóia-fria simplório, interpretado por Lima Duarte, e a professora Clotilde, vivida pela musa Maitê Proença, na novela "O Salvador da Pátria", de 1989. Eu havia dito que emplacar uma canção numa novela da Globo é a melhor e a pior coisa para um artista fora do "circuito cultural". Explico-me: no caso de Montenegro, a flauta doce predominante em "Lua e Flor" e o tempo melódico acabaram caindo no desgosto do público e no sarcasmo cáustico da crítica que, até hoje, 22 anos depois de o Sassá Mutema ter amargado um pé-na-bunda da "professorinha", ainda atrela a obra do compositor àquela música específica. Por outro lado, não vejo como Montenegro teria sido conhecido pelo público - ainda que amaldiçoado por ele - a não ser pelo escopo estrondoso que uma novela atinge.

O caso do Paulinho foi menos trágico. Em 1995, quando a sua "O Último Dia" alçou-o a quinze segundos de fama, ele ainda era conhecido pelos fãs cativos como "Paulinho". Hoje, 16 anos depois do final da novela, ele é simplesmente o Moska. Alguns compositores, ainda que underground, detém versatilidade e conseguem escapar das garras e da sombra da novela das oito. Moska mudou seu estilo - na época minimalista, com um violão e um violoncelo apenas - a cada novo álbum lançado e, hoje, é reconhecido praticamente como um "artista completo", definição etérea demais para mim, mas que abrange algo como a união do pop com o eletrônico, lounge, indie e não sei mais o que exatamente. O Montenegro, que de versátil não tem nada e nem sabe usar um computador, não varia seu estilo e, por isso, manteve o mesmo nome, desde que a sua "Bandolins" venceu o Festival da TV Tupi em 1979 e, em 1980, "Agonia" ganhou o primeiro prêmio no Festival da Música Popular. Hoje, ele é conhecido pelo "grande público" - a malta em frenesi, como gosto de chamá-lo carinhosamente - como o hippie velho, sujo e chato de "Lua e Flor". Essa ignorância e o preconceito aviltante da massa devem-se a um indivíduo que atendia pela alcunha de "Bussunda" e participava de um programa igualmente aviltante, de nome "Casseta e Planeta". A um "artista" - que por sinal jaz nas profundezas sulfúricas de Hades nesse minuto - que se autodenomina "Bussunda", não hei de me dignar a traçar nem mais uma linha.


O preconceito cultural, social, ideológico, racial, de gênero e estético não são apenas aviltantes e torpes; são a prova cabal da ignorância, da mente obtusa e da capacidade idiotizante que o animal urbano, vulgo cosmopolita e/ou cidadão do mundo tem de repetir conceitos pré-estabelecidos, tal qual seus companheiros psitaciformes, que emitem "louro, curupaco, louro, dá o pé" como se estivessem decretando a independência de uma pequena Ilha na Polinésia, pobres aves. Entretanto, este é o papel do papagaio e, por atender a seu propósito, ele merece os louros - trocadilhos à parte - da vitória. Por outro lado, o papel de um indivíduo pensante não é repetir idéias, arremedar hábitos sócio-culturais encruados e muito menos formar sua opinião a partir da opinião de um outro alguém, já formada a priori. Para que pensemos, é preciso, antes de qualquer coisa, que estejamos de olhos abertos, para que as múltiplas realidades do mundo que nos circunscreve entrem-nos pelos olhos e atinjam-nos a consciência. Ora, olhar, ver e enxergar são coisas completamente distintas. Quem olha a sua volta, mas não vê, nem jamais enxerga, é incapaz de pensar por si mesmo. Ocorre que "ver" e "enxergar" a realidade representam, em última análise, experimentar, ouvir, provar, lamber, comer e deglutir essa realidade. E, venhamos e convenhamos, é muito mais conveniente e cômodo andar pelo mundo com os olhos vendados, regurgitar as próprias e já familiares experiências e, assim, não enxergar coisa alguma além da ponta do nariz e, por conseqüência, reproduzir conceitos pscitaciformemente.

Sim, pois quando enxergamos, tocamos e lambemos o mundo, nossos conceitos, pré-estabelecidos ou recém-adquiridos, nossos valores e crenças e todo o paradigma que nos sustenta, estátuas de ouro com pragmáticos pés de barro, são chacoalhados e postos à prova. O barulho do novo e do diferente incomoda, ensurdece, irrita e enerva. É melhor e mais prudente, confortável até, silenciá-lo. Assim, repetimos as palavras do "Bussunda"; ecoamos ideais já mortos; mimetizamos hábitos paternos; evitamos os "pretos" porque nossos bisavós o faziam; xingamos as "bichas" porque nossos colegas de trabalho esperam que o façamos; taxamos as "solteironas" de 40 anos - que usam roupas de "gatinhas" de 20 - como "putas" e "mal-amadas", porque o nosso tio Jorge, muito admirado por seus êxitos na Bolsa de Valores, pensa assim; rebaixamos os "crentes" ao nível dos leprosos, "aidéticos" e semi-analfabetos porque, afinal, "crentes" não passam de ex-viciados, fracos e acéfalos; evitamos comida caseira, tipo arroz, feijão, ovo, couve e angu, porque o sócio majoritário do escritório disse que isso é coisa de "caipira", "paraíba" ou "bóia-fria"; ouvimos rock porque é bacana e vamos arranjar encontros; achamos que as praias não devem ser freqüentadas por moradores da "Baixada" porque a Linha Amarela foi um erro político abissal; cuspimos na música sertaneja - de ontem, de hoje, não importa, já que não a conhecemos - porque alguém muito famoso cuspiu também, em entrevista ao Jô; não assistimos a filmes nacionais porque alguém disse, num almoço de natal, que eles são péssimos desde Mazzaropi, só têm nudez gratuita e tiram dinheiro dos cofres públicos; adotamos o Flamengo como o "time do coração" porque é a maior torcida organizada do país; torcemos o nariz para os pais que pagam uma viagem à Disney para os filhos adolescentes porque isso virou cafonice de novo-rico, e o supra-suma da beleza, da civilidade e da organização urbana é a Europa;  queimamos a bandeira norte-americana porque é esperado que sejamos anti-yankees, anti-Bush, anti-Obama, anti-Chevrolet, anti-Hollywood, anti-McDonald's, anti-Coca-Cola, antibióticos, anti-inflamatórios, antifúngicos, blá, blá, blá.

Não defendo o relativismo cultural dos sociólogos. Muita coisa é relativa, sim, e é bom que o seja, mas nem tudo. Qualquer expressão cultural, em qualquer parte do mundo civilizado que envolver barbárie e opressão, NÃO deve ser relativizada. O objetivo máximo do homem é evoluir culturalmente, socialmente, economicamente, pessoalmente. Subir escadas é basicamente o que fazemos diariamente, desde que adentramos o mundo. Por isso o preconceito e a reprodução cega e surda de valores pré-estabelecidos são, a posteriori, uma demonstração simiesca da barbárie e da involução humanas. Em outras palavras, não enxergar o mundo, não pensar por si próprio e bancar o papagaio do vizinho têm o mesmo valor de andar para trás, enfiar a cabeça num buraco de avestruz e assumir-se um boçal, a despeito do alto valor obtido no último teste de coeficiente intelectual.

Ter idéias próprias é perigoso. Há bem pouco tempo ainda se torturava, queimava, enforcava e decapitava um bom número de "recalcitrantes" por isso. Eram o preconceito e o poder de mãos dadas, uma dupla infalível para a degradação humana. Mas a evolução é contínua e inexorável, ainda que lenta e não facilmente perceptível aos olhos - especialmente se estes estiverem fechados ou voltados para o umbigo do ser. Pensar por si próprio, hoje, não leva ninguém ao cadafalso, aos "porões da ditadura", nem a uma cruz incandescente de labaredas mortais. A liberdade de pensamento, mais do que a liberdade de expressão, é a garantia da unicidade e da evolução do homem, não enquanto espécie, mas como indivíduo e cidadão. Pensar sozinho dói? Às vezes. E formar uma opinião legítima? Sempre. Mas é libertador. Pois não há grilhões mais resistentes do que os do preconceito e da repetição. Uma vez livres deles, abrem-se os olhos, enxerga-se o mundo, experimenta-se a vida, tomam-se decisões e, finalmente, torna-se gente.   

do desencontro

Eu, mar, que espera o desaguar tempestuoso dos rios, 
que farão minhas águas mais caudalosas
e enfeitarão as marés com torvelinhos e correntes salobras,
lambuzando-me o azul com uma língua de marrom barrento no estuário.

Tu, riacho, um regaro de águas doces e glaciais,
que correm mansas sobre perenes seixos polidos
curso d'água menos ávido que um ribeirão, sem pretensões mesmas
de seguir intrépido para desembocar em meu enlace oceânico.

Eu, balbúrdia de burgos, risadas retumbantes a ecoar por corredores
e fazer-lhes despencar azulejos, rebentar tramelas e invadir portões
um tropel de alazões fugidios no verão, desatinados em busca de seu senhor.

Tu, silêncio de bibliotecas, refinamento contrito que congela a aragem
e sufoca os movimentos, estalagmites de censura a acutilar, tolher e ressequir
uma gralha azul-inverno a ganir solitária na abóboda anil de um firmamento sem dono.

23 de março de 2011

não-sujeito [proseando com "Sujeito Simples, Composto", de Ivy]

Tenho uma bola de cristal maciço, pequena, que vive pendurada por um fio de nylon à janela do meu quarto. Não é uma Swarovski, como eu caprichosa e pretensiosamente desejaria, mas é cristal de verdade; nada daquele vidro colorido, meio opaco e misturado à resina, que nas feiras de praia e nos camelôs vendem-se aos milhares. Esse cristal não possui função meramente decorativa, até porque, esteticamente, nenhum penduricalho me agrada, mesmo que seja um penduricalho Swarovski. Meu cristal serve para dizer que o verão está acabando e o outono bate às portas tupiniquins. No verão, o sol mora alto no horizonte e não entra pela janela do meu quarto, ou seja, nenhum raio é refratado pelo cristal. À medida que o frio vem chegando, o sol fica cada vez mais indolente e, mandrião que só ele, vai-se deitando no firmamento. Então, seus raios compridos e tépidos vazam janela adentro e tocam o meu cristal; arco-íris se formam nas paredes do quarto e no piso do corredor. Se estiver ventando, o cristal gira com o fio de nylon e as cores dançam pela casa. Hoje vi o primeiro arco-íris que o meu cristal projetou; uma fatia de ondas de luz vermelho-cereja, clareando para laranja-bahia, amarelo-ouro, lápis-lazúli, rosa-chá e verde-rã, até sumir no branco. Se o meu cristal não estivesse ali para decompor a luz do sol e refratá-la em freqüências perceptíveis pelo olho humano, só haveria uma poça de branco no chão do corredor e as cores não bailariam pelas paredes.

   
Mas o meu cristal, como todo o resto da humanidade em conjunto e individualmente, tem uma história. Há três anos, enquanto limpava os vidros da janela, a faxineira atrapalhou-se com o fio de nylon e deixou a bola despencar do segundo andar. O cristal bateu na quina do meio-fio da rua, lascou-se numa das facetas, mas não morreu. A faxineira, sim, quase enfartou; não tanto por ter deixado o meu cristal cair. Afinal, acidentes domésticos são esperados na relação de contrato trabalhista com faxineiras; ela se assustou de verdade quando viu que a bola não havia se despedaçado por completo, caindo de uma altura de doze metros. Depois de se elevar ao status de sobrevivente, meu cristal tornou-se ainda mais importante, belo e único. 

Poetas e escritores vivem de metáforas. Acredito que o desejo de fazer malabarismo com as palavras venha dessa mania nossa de ver poesia, lirismo e metáforas em todo lugar. Para mim, toda a gente é como um cristal verdadeiro, Swarovski ou não, por quem a luz branca refrata e, só por isso, derrama-se em cor. Dizem que um cristal quebrado não cola jamais, nem produz o mesmo som. Mas acho que esse ditado se refere àquelas taças finíssimas que se caírem ou se tocarem com um pouco mais de força num brinde de ano-novo, vão invariavelmente se espatifar em mil pedaços. Quando penso em pessoas e cristais, não os associo tanto a taças, meros receptáculos de champagne, vinho e água, mas às bolas maciças, como a que habita a minha janela. Se colam depois de quebradas, não sei; a faxineira falhou em encontrar o pedaço lascado na rua do meu prédio. Entretanto, refratam a luz da mesma maneira. Aliás, quanto mais facetado um cristal, mais caro ele é e, conseqüentemente, maior é o seu poder refratário.

Roland Barthes, sociólogo e filósofo francês, dizia que um "escritor não tem passado, pois nasce com o texto". Para ele, o autor-sujeito e o escritor-indivíduo morrem para dar luz ao leitor, objetivo final e único do texto. Sobre escritores onfalópsicos, que regurgitam seus temas, circunscrevendo-os aos próprios umbigos e repensando identidades, Barthes afirma que não é a pergunta trágica do louco - "quem sou eu?" - que orienta a obra, mas a pergunta cômica do desnorteado - "sou?". Ultimamente tenho sentido uma espécie de angústia, uma experiência metafísica que é a consciência de mim mesma; Sartre chamava esse sentimento de angoisse, que existencialistas como eu têm, por exemplo, quando se perguntam se o que escrevem é um auto-retrato disfarçado de crônica ou uma tentativa de descoberta de identidade que leva o poeta, impulsivamente, a fazer poesia. Minha mãe diz que eu penso muito em "quem sou", o que, segundo Barthes, aloca-me no rol dos malucos trágicos. Ocorre que minha angoisse tomou-me tão completamente que me vejo melhor posicionada junto aos risíveis desnorteados; fartei-me de querer saber quem sou. Já nem sei mais se sou. No processo, escrevo. E, perdida, tento me encontrar nas entrelinhas, nos códigos cifrados e nas rimas.

Ivy Gobeti, que escreve nesse blog e é tão ou mais tresloucada do que eu, tem uma forma simples, sucinta e genial de definir essa questão de ser: somos sujeitos simples, e/mas compostos.


Este sempre foi um dilema primal na minha vida de crises existenciais. Sou um sujeito simples, na acepção pura da palavra: evidente, humilde, crédulo, rudimentar, espontâneo, natural. O problema, para variar, é a contradição, essa maldita dicotomia que impede o maniqueísmo conveniente, fácil e confortável do mundo. Por isso a definição de Ivy é tão completa: sujeito simples, composto de ambigüidades e incompleto. O poeta  maldito e beberrão, Charles Bukowski - que deveria ter sido enterrado num caixão de cristal Swarowski - dizia que não é morrer que é ruim; porcaria mesmo é estar perdido. Porcaria ainda maior é estar perdido entre a simplicidade do sujeito e o risco de se tornar sujeito simplório ou sujeito oco, tudo isso sem perder a complexidade, mas não se transformar em sujeito pedante ou sujeito facetado.

"Mulher Chorando", Pablo Picasso

Se eu fosse mais esperta e seguisse os conselhos da minha mãe, iria me afogar num trabalho prático, hiper, super bem remunerado, fazer um pé de meia fantástico, comprar roupas elegantes, viajar para a Europa e aplicar botox três vezes por ano. Agora, se eu tivesse poderes mediúnicos ou realmente acreditasse nisso, além de seguir os conselhos da minha mãe, eu juntaria uma turma de peso em matéria de elucubração e crise existencial. Na minha conferência do além-túmulo, estariam presentes Sartre, Barthes, Bukowski, Freud, Goethe, Schopenhauer, Cervantes, Dostoievski e mais um bando de barbudos malucos. Claro que eu pediria educadamente ao Nietzsche para comandar o debate. E, através da minha pretensa mediunidade avançada, filmaria essa turma de fantasmas pensantes quebrando o pau ou, na pior das hipóteses, chutando o pau da barraca por não chegar a um denominador comum. Obviamente que a conferência seria, num momento posterior, divulgada. E mais óbvio ainda seria o retorno financeiro dessa empreitada. Ninguém perguntou, aliás nem sei se isso viria muito ao caso, mas o cenário do debate seria o meu quarto. E no inverno, para as almas penadas ficarem alucinadas com os arco-íris do meu cristal rodopiando nas paredes.