14 de janeiro de 2011

gente

adoro pessoas, mais até do que os bichos
gente grande e pequena, amarela e azul
que dorme de dia e trabalha à noite
e junta as economias pra viajar pro sul

gosto de gente que ri e amo quem chora
porque a lágrima é o tempero da vida do poeta
e gente que desobedece às regras do jogo
é a espécie que mais facilmente me completa

desajuizados, insanos e febris me fascinam
pois são gente como você e eu, apenas com mais coragem
andarilhos que percorrem trilhas de formigas
e se expõem ao mundo sem um traço de maquilagem

crianças e velhos, gente diferente mas igual entre si
a cara e a coroa da mesma moeda humana
sorrisos em gengivas rosadas, débeis e verdadeiros
o princípio e o final de cada vida cigana


adoro pessoas que adoram a deus e também os descrentes
porque para mim fiel, infiel e deus é tudo gente
girando num ciclo de semente, galho, flor e fruto
do qual cada um de nós, deuses, é onisciente

mulheres que pensam como homens
e homens que sentem como mulheres
esses são gente por quem me apaixono
pois escapam de rígidos e tediosos caracteres

gente que fala, gente que cala
heróis por vocação, líderes acidentais
todos gente que sua, que ama e que odeia
gente rara ou comum, todos desiguais

adoro pessoas pelo grotesco natural que são
e por optarem pelo belo, pelo único e pelo comovente
mas há também pessoas que nem reconheço como tal
espectros que não fazem mais do que fugir de gente

13 de janeiro de 2011

trens


o trem passou pela estação sem parar
e eu nem estava lá para perdê-lo
acreditava que ele só partiria em viagem
quando estivéssemos juntos no mar
mas seu apito sonoro, qual bafejo distante
um adeus metálico, a me rasgar os sonhos
lembrou-me que trens, assim como rios
não atracam no mar, pois são viajantes

12 de janeiro de 2011

triângulo

pode-se fugir de quase tudo no mundo
embora escapar e postergar soluções
não seja aconselhável o tempo todo 
se você quiser ter crédito na praça

pode-se fugir de compromissos sociais tediosos
como jantares com os amigos da empresa
e o karaokê com seus primos do interior
até do natal, do ano-bom e do carnaval dá pra escapar

pode-se fugir de idéias obsessivas
que consomem a mente como a noite engole o dia
pois todo bom ser humano que se preza
tem um sótão trancado com seus fantasmas ocasionais

pode-se fugir do tempo e das marcas que ele traz
comendo grãos, peixe cru e outras iguarias do gênero
e correndo quilômetros sem sair do lugar
além de hipertrofiar músculos e embotar pensamentos


pode-se fugir até das mais honrosas responsabilidades
e comprar uma passagem só de ida pra Sibéria
onde o viajante há de se imobilizar num cubo de gelo flutuante
pra morar à deriva da vida, numa eterna pilhéria

pode-se fugir de si mesmo, ápice do escapismo
fechando as janelas para o sol, tampando os ouvidos para o dia
dá até pra cobrir os olhos, selar os lábios com breu
e deixar de ser humano pra virar um sonho de confeitaria

pode-se fugir dos pais, dos filhos e do entardecer
dá pra escapar ao chamado da guerra e nunca virar soldado
ou então fugir dos pedidos de paz e abraçar batalhas sem fim
mas não é tão fácil escapar do amor sob fogo cruzado

gárgula

os planos, a lógica, a determinação / deles
os horários, a agenda, o calendário / dos outros
as molduras, os despertadores, os discursos / coletivos
ah, como tudo isso te dá sono...

mas não é um sono para que durmas
nem para que relaxes do cansaço da lida
ou para que recuperes o fôlego depois do amor
é mais um sono de trevas, para que adormeças em vida

com a tua mente embotada e a visão enevoada
acabam te transformando num personagem indistinto
onde interpretas um enredo que não é o teu
e, na vereda sorumbática do alheio, tua história se perde num labirinto

dédalos para ti, projetos e alvos para eles
que em posse de palheta, pincéis e giz
cromatizam o teu mundo como pintores cegos e autoritários
à revelia das cores que há muito tonalizam tuas retinas


nada há de mais temeroso do que dormir de olhos abertos
essa labilidade morosa, comprida feito sombra de fim de tarde
que devora teus sonhos, tua identidade e razão
até sobrar nada além da fábula que alguém escreveu para ti

até a moldura do quadro que não pintaste
encerrar uma vida inteira entre quatro varetas rígidas
até as cores que escolheram para adornar o teu sorriso
se tornarem de fato os tons incrustados do teu pranto

porque é na clareira borrada que teu choro abre na face
que percebes, ainda anestesiado de letargia, mudo e alquebrado  
que passaras a vida dormindo, na forma de um pequeno gárgula
antes vivo, hoje petrificado, inofensivo e coberto de limo e pássaros...

... que tu, estátua, observas voar para o horizonte. Apenas até aonde teus olhos baços podem alcançar.

(a)temporal

habitam-me nuvens gordas e baixas, um mil-folhas de cinza
cumulus prenhes de tempestades e vendavais
que tomam meu silêncio de assalto às trovoadas
e imploram pelo pranto torrencial das enchentes

arrebatam-me as insanas chuvas de verão
a iluminar os céus escuros da memória, porões do ser
com relâmpagos que rasgam o tempo feito chicotes
e expõem carnes, desnudam pensamentos

controlam-me a fúria das marés e a loucura das ondas
um oceano inteiro que meu infinito contém
mas escapam-me pelos olhos as ressacas do mar
que engole galés, as naus incautas do inconsciente


sobrevive em mim o contraste triste de cores e sombras
que tingem o horizonte logo depois do temporal
pinceladas vãs, por onde o sol morteiro tenta irradiar
a timidez branda dos raios mais insistentes

reinam em mim os ventos mais retumbantes
soberanos que destelham castelos e varrem paixões
mas que, exaustos da luta, bafejam no ar o perfume
vaporoso, cândido e fresco das manhãs

afloram de mim o calor e a sede dos desertos
mas também o frio glacial da solidão e da guerra
pois habitam-me continentes inteiros, mil estações
que governam o vasto de mim, furacão que o corpo encerra