24 de maio de 2011

o melhor bolo do planeta

Para a Manu, que é como o Carlos, nos melhores sentidos. E para os meus pais, que também souberam cozinhar o seu próprio destino.


Em 1987, um economista português que atende pela alcunha de Carlos Brás Lopes, decidiu chutar o pau matemático da barraca - ou o pau da barraca matemática; aqui a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Conto-lhe a equação, digo, a história, e você aplica a fórmula de Bhaskara para decidir o resultado. Enfim, foi preciso que o sujeito, não por ser português, mas por ter sucumbido ao seu lado demasiado humano, cursasse cinco anos de Faculdade, sobrevivesse a um casamento falido e se deparasse com outro já a lhe bater às portas, para descobrir que taxas de juro, equações variáveis e oscilações da bolsa de valores jamais lhe alimentariam da paixão que ele precisava para dar um passo após o outro, com significado e valor; algo muito diferente dos passos trôpegos e incertos dos autômatos, que vivem imobilizados pela culpa de tentar e pela certeza da covardia em desistir de seus sonhos, suas paixões e ambições. Esse é o problema dos sonhos e da resposta ao chamado das vocações: você é obrigado a sair da inércia antes que um bonde lotado de gente com bilhetes para o futuro lhe passe por cima, estraçalhando-lhe os sonhos e amputando-lhe as vocações. Estar no bonde é melhor e mais recomendável do que fora dele, atolado no meio do caminho entre a culpa e a redenção.

Porque Carlos Brás é um português inteligente, logo percebeu que, uma vez autômato e trôpego como um economista, o bonde do futuro - e do inexorável avanço do tempo - logo chegaria à sua estação fantasma e , na correria da vida, para chegar mais rápido ao futuro, não pararia para ele. E isso não seria culpa do maquinista, que conduz o bonde igualmente para todos - nós é que escolhemos a modalidade da passagem: rápido, allegro ma non troppo, devagar, quase parando e ausência de bilhete. O fato é que, de longe, o que o condutor do bonde avista no ponto não é Carlos, o economista. É um Pedra Carlos cor de cimento, semelhante a uma forma humana, sentada com os ombros encolhidos, olhando para o nada. Mas o maquinista sabe bem, não é nada bobo, que rochas não possuem ombros, nem se sentam e muito menos olham para o vazio. O rapaz que conduz o bonde lotado para o futuro sacode a cabeça, esfrega os olhos com as costas das mãos, belisca-se para ter certeza de que não está a sonhar e olha novamente, cada vez mais próximo do ponto. Não, aquilo não poderia ser um passageiro. E pensa: "Como as rochas podem adquirir formatos tão peculiares, como os de corpos humanos petrificados?" Desnecessário afirmar que o bonde não parou para Carlos. E, por pouco, na velocidade de quem se move, que é sempre mais alta em relação ao que jaz inerte, quase não lhe amputa os braços, outrora estendidos em busca da redenção, fruto da culpa por sonhar.

Foi pelo susto na estação que Carlos Brás, o economista português, decidiu fazer como a Cecília aconselha: substituir o destino pela probabilidade. Ele pensava que o seu destino estivesse selado às estatísticas, aplicações e previsão de mercados. Mas qual seria a probabilidade de o português ser bafejado pela sorte de encontrar sentido na vida, seguindo um destino que, a cada manhã, ele se perguntava ser legitimamente seu...? Fez algumas contas, utilizou-se dos números como sabia e pesou o destino e a probabilidade. O segundo prato rendeu a balança. E Carlos, num átimo epifânico, concluiu que jamais passaria pelo embaraço de ser confundido por uma pedra novamente. Foi então que ele chutou o pau da barraca.

Ocorre que uma tenda veio ao chão, mas outra já estava pronta para ser armada e servir-lhe de morada. O Carlos, ex-economista, descobriu que gostava de caçarolas, panelas, tabuleiros, pratos, taças, colheres, batedeiras e claras em neve. E descobriu que podia, literalmente, pôr as mãos na massa e, eventualmente, ganhar dinheiro com isso. Abriu um restaurante de comida regional em Lisboa. Virou chefe de cozinha, feliz da vida. Então, o português criou uma receita de bolo de chocolate, ingrediente que acreditava ser imprescindível a qualquer um que desejasse, como ele, abraçar a probabilidade e se livrar do peso do destino. Fato: o bolo de chocolate do Carlos se tornou a estrela do cardápio. Conta-se em Lisboa que havia quem fosse ao restaurante já alimentado, só para pedir o doce, prato principal da casa. Há duas possíveis razões para o sucesso do bolo: ele é realmente, escandalosamente delicioso ou, versão em que prefiro crer, o chocolate usado na receita trazia a paixão, a vitalidade e a leveza da probabilidade aos estômagos pesados de destinos indigestos.

Esse é o Carlos. E, aquele, é o bolo.

Não demorou muito para o Carlos precisar abrir outro negócio. Não pense você que o português optou por uma filial do primeiro restaurante; já lhe disse, portugueses são inteligentes. Dessa vez, ele abriu uma pequena confeitaria, só para vender a sobremesa. Chamou o estabelecimento de "O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo". Quando alguma coisa vem a ser a melhor coisa do mundo, não pode ser complicada; há apenas três versões da iguaria: tradicional doce, com 53% de cacau; meio-amargo, com 70% de cacau; e zero açúcar, para diabéticos e magras por opção, que também têm o direito de experimentar o melhor bolo de chocolate do mundo. A receita não leva farinha, nem fermento - o que corrobora a tese do Carlos e da Clarice de que o destino pode ser suplantado pela probabilidade. Afinal, receita de bolo não é apenas uma receita de bolo, com ovos, leite, farinha e fermento...? Pois é, cara-pálida. O melhor bolo de chocolate do mundo não segue a receita do destino.

Algum tempo depois, o português, com o seu velho espírito de colonizador, trouxe a franquia para o Brasil. A primeira aportou em São Paulo. Em seguida Brasília, Rio de Janeiro e Salvador também foram sitiadas pela guloseima. E o negócio é feito uma bola de neve, ou melhor, de chocolate, rolando e se agigantando até tomar todas as capitais tupiniquins. As lojas seguem o mesmo padrão da primeira confeitaria inaugurada em Lisboa, em 1987, e a receita é a mesma; um meio-amargo do Leblon é idêntico ao meio-amargo do Morumbi. O Carlos é exigente e honesto; se o sol brilha para todos, o seu bolo será o melhor do mundo em cada canto do mundo onde alguém quiser prová-lo.

Talvez um dia eu visite Lisboa. Dizem que é uma cidade encantadora. E se isso acontecer, talvez eu faça malabarismos incríveis para atrair a atenção do Carlos e ter uma prosa com ele. Talvez ele, um lusitano sonhador e corajoso, tenha compaixão pelo meu dilema brasileiro de não desistir nunca, engolir o destino a seco e fingir que a probabilidade de ser infeliz não existe. Tenho encontrado um bocado de gente que, para lá dos quarenta anos, faz como o Carlos: chuta o pau da barraca que não lhe cabe mais e parte para outra. Se isso acontece, é porque muita gente não engole o destino que pensava ou acreditava ser o seu e, com medo de ser atropelado pelo bonde do futuro, passa a escrever um novo roteiro, com probabilidades que se tornam possibilidades, sonhos que viram objetivos, um destino próprio, diverso e renovado. Se o melhor bolo de chocolate do mundo ajudar nesse processo, o meu preferido é o tradicional doce, com uma bola de sorvete de creme. E eu substituiria todas as refeições insossas de arroz com feijão da vida pelas guloseimas que têm o gosto incomparável do destino reescrito. 

21 de maio de 2011

registros

Para Milene Portela, Luciana Hipólito, Ivy Gobeti, Maíra Zanoli e Martha Bueno: pequenas, grandes garotas que salvam os seus arquivos.


Há certas ocasiões em que tudo que um escritor precisa é de um diário. Não há estatísticas para isso - e confesso que números sempre foram mais uma pedra em meu sapato do que uma mão na roda; mas o fato é que ninguém mais escreve diários. Dia desses fui a uma papelaria com ares de loja de conveniência em busca de um diário à moda antiga, com um cadeado na capa e uma pequena chave de valor simbólico, apologia da privacidade. Não posso dizer que me surpreendi ao não encontrá-lo; viver à moda antiga, estando aí inclusos escrever e resguardar a privacidade, tornou-se artigo dos mais démodé entre o que se convencionou ser o ideal da vida moderna. As atividades mais próximas de um diário, ao que parece, são as mensagens instantâneas do Twitter e as declarações à guisa de "o que estou pensando no momento" do Facebook. É claro que ambos os casos não se equiparam ao hábito de auto-confissão de quem escreve um diário e, a bem da verdade, nem se propõem a isso. Pessoas mudam, o mundo evolui e costumes tornam-se obsoletos. Não aceitar a condição inexorável da volubilidade, empacar no meio do caminho, vestir a mortalha da nostalgia e insistir em cultivar hábitos antigos é doloroso e contraproducente; deve haver maneiras mais práticas de dar vazão à verborragia sem que se precise sair em busca de um diário com chave e cadeado.

Se você não for um autor de renome que tem a prerrogativa de publicar um livro de memórias, que nada mais é do que um diário póstumo, escrito de trás para frente, e ainda assim encurvar-se sob o peso do desejo onfalópsico de falar de si nos moldes de um diário, para esse mal há um paliativo: os blogs. Pensando melhor, esse argumento que acabo de usar é esdrúxulo. Eu poderia simplesmente comprar um caderno, rechear as páginas com conteúdo auto-avaliativo e guardá-lo na prateleira mais alta da estante. No entanto, o desejo é mais profundo e um pouco mais complexo: tanto ao autor renomado quanto ao pretenso escritor não basta escrever sobre si; é preciso que alguém leia essa confissão e, por meio da confidência compartilhada, haja a redenção. A escrita é a forma mais elaborada da fala. Quem deseja falar sobre si mesmo em tom declarativo tem qualquer culpa a expiar e pretende se redimir, ainda que inconscientemente. A absolvição do escritor são os olhos do leitor e, a priori, todo diário tem o desejo secreto de ser descoberto e avidamente explorado. Se não fosse dessa forma, não haveria biografias, álbuns de retratos, nem livros de memórias e ninguém guardaria registros de correspondências ou cartas de amor. Afinal, descartar é mais conveniente do que salvar e quem preserva evidências palpáveis da memória não o faz por mero acaso: naquele que conserva registros do que já não existe a não ser no universo da lembrança, jaz o desejo de que alguém abra a caixa de Pandora do passado e sopre a poeira em olhos alheios.

Por vezes o passado me ronda como fantasmas agourentos; em outras ocasiões, como suaves borboletas. A agonia ou a placidez dependem, obviamente, da lembrança e das cores com as quais ela ficou impressa na memória. Conheço gente que, à revelia de reminiscências trágicas, retém toda recordação em techinicolor e, vezenquando, visita o que ficou para trás como se estivesse dando um passeio no parque numa tarde de domingo. Meu êxito em conter a inveja desses viajantes do tempo é nulo pois pertenço a outro grupo: aquele que fotografa o passado em preto e branco e, na melhor das hipóteses, em sépia. Talvez por isso as reminiscências que guardo do passado sejam apenas isso: vagas e brumosas lembranças. Nas prateleiras e gavetas da minha vida não há registros tangíveis do que passou. Escolhi compactar e formatar meus arquivos dessa maneira não porque eu odeie o passado, ao contrário; é por viver dele que, muitas vezes, encontro-me enraizada como um tronco retorcido à beira da estrada. Entre nós - o passado e eu - é imperativamente desaconselhável a existência de provas físicas, como cartas, fotografias, documentos e registros; na minha caixa de Pandora só posso guardar o que ainda acontece, pois o que já aconteceu nunca me vem luminoso, brando e doce como um passeio no parque. Entre fantasmas e borboletas, são os primeiros que vejo mais quando abro o meu livro de memórias. E calafrio é o que sinto nessas ocasiões.

Por outro lado, as cores da memória - e das fotografias - dependem grande parte das lentes com as quais o passado é retratado. Há dias azuis que, a despeito do real que eu sei existir, enxergo cinza. Quem tem as retinas tingidas de chumbo de dentro para fora, dificilmente será capaz de pintar um quadro que não seja monocromático, monótono, monolítico, autônomo. Alguém me disse certa vez que os meus temas são sempre os mesmos: um tom sobre tom de cinza.Talvez este seja um defeito da alma que me comprometa a visão, mas quando observo um retrato em branco e preto, ainda que de uma cena bela e feliz, é sempre solidão que vejo. Retinas escuras e lentes acortinadas devem atrair o cinzento e o nebuloso como um ímã porque, na ausência de cor, não há passado nem presente que se possa resguardar na companhia de um segundo observador. Pessoas mudam, o mundo evolui e costumes tornam-se obsoletos. Eu gostaria mesmo é de mudar a cor dos meus olhos, a começar pelo avesso, até o colorido interior jorrar para o mundo lá fora. Dessa forma talvez eu pudesse enxergar em techinicolor cada instantâneo, vendo-o envelhecer, lembrança em que se transforma, sem desbotar nem amarelar. E assim, quem sabe, o temor dos registros me abandonasse de vez.         

20 de maio de 2011

colibri

O texto a seguir é parte de uma carta que escrevi numa segunda-feira nublada, ouvindo a celeuma das crianças de uma escola a trinta metros abaixo da janela do apartamento onde estava, sentindo a brisa fria e salobra bagunçar-me os cabelos. As palavras abaixo não nasceram para ser publicadas, mas para fazer brilhar os olhos de alguém que amo, trazer-lhe um sorriso aos lábios e aquecer-lhe o coração nos momentos em que nem a algazarra das crianças, nem a brisa e nem eu poderíamos preencher - ou ter preenchido - suas lacunas. Por íntima, vai aqui apenas parte da missiva. E porque fez brotar tanta emoção, cedo à tentação de compartilhá-la com outras violetas.  


Há uma canção de um violeiro que diz assim: 

“(...) Disparo balas de canhão 
É inútil, pois existe um grão-vizir 
Há tantas violetas velhas 
Sem um colibri(...)” 

Até pouco tempo, havia feito morada em minha consciência a idéia de que já me tornara uma “violeta velha”, sem nunca ter provado o beijo de um colibri, nem avistado, atônita, o pulsar de suas asas que, de tão ágeis e leves, mais se assemelham a pinceladas num quadro expressionista. Houve também o tempo em que ainda disparasse balas de canhão, eu, ilha flutuante, contra sólidos continentes. Mas, uma ilha sem um grão-vizir é como um sultanato sem o seu califa; os disparos são aleatórios e desmedidos e o coração, vazio e sem um senhor, é território estéril, donde brotam flores que, por frágeis, transmutam-se em soldados violáceos a travar quixotescas batalhas.

No entanto, cada disparo solitário de canhão é um grito abortado, que morre na garganta antes de chegar ao palato, inflar-se ao vento e ganhar a liberdade das palavras. E todo grito emudecido e áspero é o som incontido de um temor; pois a ilha teme a glória e a maldição de poder-se governar no anonimato das memórias, sem um náufrago que aporte em suas praias, monte ali o seu palácio e, na indolência do ocaso, quando o céu laranja parece ser ainda maior e mais infinito do que a própria vida, vá visitar a estufa onde a flor aguarda pela redenção de um beijo, o primeiro ruflar silencioso das asas de um colibri-vizir.

Ainda sou ilha. Mas, “ilha” não é apenas um pedaço de terra cercado de água. “Ilha” é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Assim, um garoto tímido, abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha; um velho, que esperou a visita dos netos para o Natal em que ninguém compareceu, é uma ilha; até um sujeito, assoviando leve e bem-humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha; tudo em nosso peito, que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. E toda ilha é verde. Uma folha de plátano emaciada, tombando da árvore ao solo, é uma ilha cercada de vento. Até a lágrima é uma ilha, deslizando no oceano da face.

Ocorre que, nos raros momentos em que soldados ilhados baixam a guarda e avistam ao longe a presença de outra ilha, o temor dos gritos abortados, dos sonhos desconhecidos ou sepultados e da solidão parece agigantar-se no coração da terra e crescer para transbordar, para implodir, para inexistir. Dessa erupção formam-se arquipélagos; e as violetas, de velhas, virgens e violáceas, tornam-se frescas, desbravadas e brandas. Ah, mas a junção de ilhas não é fácil, nem costumeira... E muito embora seja o desejo mais íntimo de toda ilha, é nos gritos ocos, roucos e surdos da solidão, ainda que a dois, a três ou aos milhares, que muitos homens e mulheres hão de continuar disparando seus canhões inutilmente, sem a segurança e o aval de um vizir e sem o beijo indelével de um colibri.

Sim, ainda sou ilha. Mas meus territórios são agora mais vastos e meus olhos, outrora velados, hoje vislumbram os contornos dos domínios meus com mais nitidez. E minha ilha, hoje maior em extensão, propriedade e significado, possui um vizir a regar-me as violetas num intervalo de tempo que, por intermitente, estende-se ao infinito, tal qual o céu no ocaso, a inspiração dos poetas e o querer dos amantes.

karaokê


No longínquo ano de 1990 e lá vão mais alguns dígitos, os poucos, porém leais amigos que eu tinha gostavam de se entregar ao deleite patético do karaokê. Naquela época, "karaokê" significava um bando de garotos amontoados na Praça da Matriz, cabulando a aula de Educação Física e cantando a plenos pulmões, sem microfone e muito menos tela de LCD com o videoclipe da música e as legendas amarelas correndo lá embaixo. Nostalgia à parte, a brincadeira era muito melhor daquele jeito: o céu era sempre azul; o sino da igreja soava alto, assustando a molecada; as mochilas de borracha ficavam sujas de terra e de grama; perdíamos os papéis avulsos do dever de casa; gastávamos o trocado para o ônibus com picolés e pipoca; penteávamos os cabelos uns dos outros; fingíamos ser politizados e discutíamos sobre a influência imperialista norte-americana; líamos os gibis da Marvel; paquerávamos os garotos e garotas dos nossos sonhos, que nunca vieram a ser realidade; prometíamos que, num dia de muito calor, nadaríamos no chafariz da Praça; ríamos às gargalhadas, até nos faltar o ar; subíamos na parte mais alta do coreto. Éramos jovens imperadores, semi-deuses, felizes, ridículos, imortais; e cantávamos.

Músicas de letras fáceis não nos agradavam. Nada deliberadamente gratuito ou fácil demais prendia a nossa atenção juvenil e embasbacada por mais de quinze minutos, nem mesmo o Andy Warhol em pessoa, pintando a Marilyn nas paredes da escola ou nos hábitos das freiras. O desafio era o que nos fazia rolar o sangue mais quente, mais rápido e mais vivo nas veias: duelos físicos e intelectuais; ser o primeiro da classe; ser o líder nos esportes; ser o mais engraçado, o mais tolo e o mais galanteador; beijar a moça mais bonita; namorar o rapaz mais promissor; tirar dez em Física; falar alguma coisa muito espirituosa para constranger a professora baixinha, loirinha e boazinha de Trigonometria; e cantar "Faroeste Caboclo", "Nowhere Fast" ou qualquer outra canção rápida e sem refrão. Esse era o nosso karaokê. E nele havia o mais mortal, (des)honroso e inesquecível dos desafios: ver qual de nós seria capaz de cantar a música inteira, sem sair do ritmo, desafinando pouco - melhor seria se não desafinássemos nada - e, glória máxima do olimpo adolescente, sem errar a letra.

Lembro-me de uma garota sardenta, de longos cabelos castanhos e olhos esverdeados, que vivia com uma caneta pendurada ao pescoço por uma cordinha de poliéster. Ela tinha diversas dessas canetas, cada qual de uma cor mais vibrante e cítrica do que a do dia anterior. Os traços de seu rosto não me escaparam à memória; o seu nome, sim. Quando os garotos falavam qualquer coisa que a aborrecesse, ela retirava a caneta do pescoço e girava-a pela cordinha, tal como o faria um vaqueiro com o seu laço, prestes a capturar o touro. Os meninos mais lentos não escapavam e voltavam para a casa com um pequeno "galo" na testa; os mais espertos fugiam das chibatadas e, livres, vitoriosos e arrogantes, corriam até o topo da Praça, rindo-se da amazona das canetas. Ela era a única, entre dezenas de garotas e garotos espinhentos, que sabia cantar "Faroeste Caboclo" inteira, sem errar. Mas o que nos assombrava mesmo era quando ela o fazia de trás para frente; então, boquiabertos, ficávamos mudos, num silêncio que era mais um sinal de temor do que de respeito, e encarávamos o rosto dela, a sua boca, seus olhos verdes que faltavam faiscar e a caneta, que ela girava no dedo indicador, distraída, para acompanhar a batida da canção.

Mas houve um desafio que ninguém foi capaz de vencer: cantar "Nowhere Fast", uma das várias canções do filme "Ruas de Fogo", de 1984, em que Diane Lane, jovem, lisa e fresca como um cisne, faz o papel da mocinha roqueira que é seqüestrada pelo bandido, motoqueiro e igualmente roqueiro Willem Dafoe. O mocinho, na época aspirante a galã - ou talvez o fosse de fato, não saberia dizer - sumiu na poeira imperdoável do tempo. De qualquer forma, ele é um mero coadjuvante no enredo: fala pouco, bate um pouco mais, não canta e só pilota motocas alucinadas e faz umas caretas de "vou conquistar o seu coração, baby. For-ever!". "Ruas de Fogo", assim como "Top Gun", "De Volta Para o Futuro", "Goonies" e "Curtindo a Vida Adoidado" eram apenas algumas das obsessões cinematográficas daquela época e entre a nossa faixa etária. Melhor do que assistir aos filmes, era esperar que eles fossem reprisados na Sessão da Tarde para que pudéssemos gravá-los em fita VHS. Nenhuma conveniência moderna, como a interatividade do assinante na programação da TV da Gisele Bündchen, nenhum DVD blu-ray, nada se equipara à excitação da espera pela reprise naqueles tempos: desmarcávamos compromissos, deixávamos de estudar para a prova, não atendíamos ao telefone, tudo para ficar de olhos grudados na tela e ouvidos atentos ao plim-plim para, só então, apertarmos o botão de REC e respirarmos aliviados.

    
"Nowhere Fast" é ágil e vigorosa; sua letra é longa, rápida e complicada e até hoje, confesso, só consigo cantá-la se acompanhada de um papel com a letra impressa em caracteres grandes, em negrito, de preferência; "Faroeste Caboclo", também. Pois é; certos desafios são insuperáveis e certas distâncias, intransponíveis, ainda que o tempo sopre, levante a poeira, cubra algumas estátuas no jardim e revele outras. Há estátuas que, quando escondidas, fazem-nos levantar as mãos para o céu e agradecer a anjos e demônios por isso; outras, quando surgem - ou ressurgem - dão um frio na barriga, que vai subindo pela espinha feito uma serpente úmida e maliciosa, que nos hipnotiza a mente e cerra-nos os olhos. Esse é o mal do tempo: ele passa e não volta; e nós, peões de um xadrez arbitrário, viramos estátuas de sal ao olhar para trás. Ou empacamos de puro terror de andar para a frente.

A música que derrotou cada um dos meus amigos inflados de auto-estima e segurança fala sobre isso, ainda que de uma maneira muito anos oitenta, com baterias retumbantes, guitarras estridentes e, o que não poderia ser mais óbvio, um coral. Fala também da juventude que transborda sonhos, ambições e vontades, mas que tem poucos objetivos e metas para aonde direcioná-los. Nada muito complexo, na verdade; a mensagem é clara: mesmo que você não tenha lugar algum aonde ir, vá depressa para lá e, acima de tudo, fuja do passado; não há nada errado em não ter para aonde ir, mas você deve ir. E rápido.

Nos idos de 1990 e mais alguns dígitos, eu ouvia essa música, tentava decorar a letra para impressionar os meus amigos e, quem sabe, fazer ainda mais bonito do que a menina das canetas (a do "Faroeste Caboclo"), mas nunca reservei cinco minutos para entender o que a cantora dizia. E este é outro mal do tempo: insistimos em revisitar as coisas e, de repente, boo! Elas fazem sentido. E o que antes era apenas melodia, vira elucubração mental. Talvez eu esteja apenas muito nostálgica, ou talvez a chegada do frio tenha me azedado um pouco, o que é bom, na verdade, pois assim tenho inspiração para escrever essas bobagens que poucos lêem e menos ainda comentam. Acaba de me ocorrer uma frase que ouvi de uma analista de uma amiga (essa história de "amiga" às vezes cola, então não me custa nada tentar). Segundo ela, o escritor feliz não produz. É preciso dor, mágoa e nostalgia para que os pensamentos virem palavras escritas. Tenho um amigo - e esse é real, garanto - que desaprova o uso de palavras viscerais em meus textos. Mas, para o exemplo acima, não consigo pensar em outro verbo senão "digerir". E "vomitar". Segundo a lógica da analista, o escritor digere a tristeza, vai ruminando a dor e, então, vomita poesia, prosa, conto ou um Prêmio Pulitzer. Nunca se sabe...

Voltei a ouvir "Nowhere Fast" numa época da minha vida em que, eufemismos às favas, não tenho ido a lugar algum. A bem da verdade, sou um barco velho e carcomido por traças, ancorado por mil correntes a um porto fustigado por tempestades e granizo. Vejo o mar, as ondas quebrando na praia, as caravelas ganhando distância e, inerte, canto a música de "Ruas de Fogo". Mas, então, a medida que o ritmo vai crescendo, sinto uma vergonha e um pesar imenso de não me aventurar em mar alto, mesmo que seja para naufragar. Porque morrer na praia não é apenas patético; é a prova cabal de que a vida passou e que você a viu de longe, pela janela exígua do porão do navio. É um atestado indelével, humilhante e doloroso de covardia. Nos anos noventa eu tinha tanta coragem, tantos sonhos e tanto querer... Não sabia exatamente para onde ir, mas caminhava. E rápido. Como diz a canção: "não sei de onde tirei a idéia genial de que eu era legal, tão só e independente". Pois é. Certos desafios existem mesmo para serem apenas isso: desafios.

"Lying in your bed and on a Saturday night
You're sweatin' buckets and it's not even hot
But your brain has got the message
And it's sending it out
To every nerve and every muscle you've got

You've got so many dreams
That you don't know where to put 'em
So you'd better turn a few of 'em loose
Your body's got a feeling that it's starting to rust
You'd better rev it up and put it to use

And I don't know how I ever thought that I could make it all alone
When you only make it better
And it better be tonight
And we'll fly away on those angel wings of chrome in your daddy's car
Waiting there for you tonight
I'll be there for you tonight

Even if you don't have anywhere to go
You go down on the pedal and you're ready to roll
And even if you don't have anywhere to go
You go down on the pedal and you're ready to roll
And your speed
Is all you'll ever need
All you'll ever need to know
Darlin', Darlin'-

You and me we're goin' nowhere slowly
And we've gotta get away from the past
There's nothin' wrong with goin' nowhere, baby
But we should be goin' nowhere fast

Everybody's goin' nowhere slowly
They're only fighting for the chance to be last
There's nothin' wrong with goin' nowhere, baby
But we should be goin' nowhere fast
It's so much better goin' nowhere fast

Stalkin' in the shadows by the light of the moon
It's like a prison and the night is a cell
Goin' anywhere has gotta be heaven tonight
'Cause stayin' here has gotta be hell
Dyin' in the city like a fire on the water
Let's go runnin' on the back of the wind
There's gotta be some action on the face of the earth
And I've gotta see your face once again

And I don't know where I ever got the bright idea that I was cool
So alone and independent
But I'm depending on you now
And you'll always be the only thing that I just can't be without
And I'm out for you tonight
I'm comin' out for you tonight

Even if you don't have anywhere to go
You go down on the pedal and you're ready to roll (ready to roll)
Even if you don't have anywhere to go
You go down on the pedal and you're ready to roll
And your speed
Is all you'll ever need
All you'll ever need to know
Darlin', Darlin'

You and me we're goin' nowhere slowly
And we've gotta get away from the past
There's nothin' wrong with goin' nowhere, baby
But we should be goin' nowhere fast

Everybody's goin' nowhere slowly
They're only fighting for the chance to be last
There's nothin' wrong with goin' nowhere, baby
But we should be goin' nowhere fast
It's so much better goin' nowhere fast

Godspeed
Godspeed
Godspeed
Speed us away!" 

18 de maio de 2011

sucesso?

"Ser bem-sucedido é algo diferente para cada um. Respeite isso."

by Alex Noriega