Chorei, chorei, nunca imaginei que pudesse chorar tanto com uma animação tão minimalista em um vídeo do youtube.com. O pessoal do Chongas descreveu o vídeo dessa forma: "E quando você percebe, mas já é tarde demais?". Senti até um friozinho na boca do estômago. Melhor abrir bem os olhos, crescer, viver, mas não deixar de lado os cachorros nossos de cada dia. Porque, um dia, pode realmente ser tarde demais.
27 de novembro de 2010
23 de novembro de 2010
entressafra
Já há algum tempo, algumas pessoas me incentivavam a ter um blog. Confesso que nada parecido com expor minhas idéias dessa maneira jamais tenha passado pela minha cabeça. Eu me entregava às minhas dilações literárias, rascunhava-as em qualquer papel que encontrasse e, se alguém não o guardasse, acabava perdido, esquecido ou em alguma lixeira. Então, numa tarde, um grande amigo (um daqueles que me encorajavam a ter um blog) acabou por me convencer. Estávamos no trabalho, mostrei-lhe um texto que tinha feito e ele mesmo "montou" o esqueleto do blog para mim. Chamou-me ao computador e disse: "Pronto. Agora, é só postar e deixar com a sua cara". Então nos ocorreu que precisávamos de um nome para o blog. Eu não tinha a menor idéia.
Não sou muito boa em nomear coisas, principalmente se não tiver pensado um pouco sobre o assunto com antecedência. Geralmente intitulo o que escrevo quando o texto já está acabado, então, dar luz a um nome para o blog foi a pior das experiências iniciais. Olhei para o meu amigo e disse: "Que nome ele pode ter? Me dá uma idéia!". Ele olhou para o teto, segurou o queixo por alguns segundos, pensativo, e disparou: "Sei lá. Porque você não coloca uma coisa meio louca, tipo 'escalafobética'?". Encarei meu amigo muito séria: "Jura? Mas você me acha escalafobética?". Lá vinha uma crise de identidade em meu encalço... Meu amigo riu, não levando a coisa muito a sério, sábio que é, e respondeu: "É. Você tem umas coisas meio escalafobéticas, sim". Suspirei, conformada. Então tá. De uma tentativa fracassada de trocadilho, nasceu o nome desse blog, ou melhor, não o nome, mas a URL, o endereço dele no universo virtual. É lógico que, minutos depois de ter o esqueleto montado, vi que nada que eu pudesse expor, mesmo que virtualmente, poderia soar tão nonsense como "Escalo-Alfabéticas". Pedi socorro a meu amigo, que me explicou que eu poderia mudar o título do blog como e o quanto quisesse, mas não o endereço. A não ser que nós excluíssemos aquele e criássemos outro. Trocamos um olhar cúmplice e, diante da preguiça que tomou conta de nós, a URL ficou.
Esse blog nasceu em 23 de setembro de 2010. Existe, portanto, há dois meses. Àquela época, eu vivia um momento de euforia e muitos risos, caminhando a alguns centímetros acima do chão. Talvez não fosse apenas euforia. Talvez eu estivesse, pura e simplesmente, feliz. Feliz como há muito não conseguia me sentir. Mas, por motivos sombrios, que eu mesma ignoro, acho melhor olhar para trás e considerar aquele um período de euforia. Para tornar as coisas mais leves, mais fáceis de engolir. O primeiro nome que dei ao blog, levada pelo momento que vivia, foi "Trens e Balões". Era, com certeza, um título melhor do que o da URL, e o escolhi porque sempre acalentei o sonho de voar num balão e viajar sobre um trem de ferro, desses bem antigos e vagarosos, numa noite enluarada. Entretanto, o título dizia ainda mais sobre aquele momento da minha vida: eu me sentia como um balão colorido, cheio de gás, flutuando mansamente no anil do céu com o qual sempre sonhara, mas apenas me sentia assim.
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| 'Estação de São Lázaro", Claude Monet |
O que sempre fui, e nunca deixei de ser, é um antigo trem de ferro, anacrônico e deslocado entre as muitas conveniências modernas, rodando e rangendo sobre os trilhos, muitas vezes em círculos, outras, percorrendo distâncias incríveis só para chegar à velha estação e, em algumas paradas, descarrilando e perdendo o norte. Essa contradição me incomodava. Tudo o que eu queria era ser um balão leve e colorido e lindo, mas os vagões e correntes jamais me permitiriam flutuar. À medida que fui dolorosamente tomando consciência disso e aceitei a idéia de escrever a vida sobre os trilhos, rangendo e contornando montanhas, bufando fumaça a cada suspiro resignado de mais um sonho esquecido e sepultado, deixando passageiros antigos e embarcando novos, enfim, quando olhei-me no espelho e ouvi um apito de trem, e não um chamado de gaivota, resolvi que esse blog seria um expresso.
Mas todo expresso vem de algum lugar e vai para algum lugar, mesmo que em jornadas cíclicas. Então, meu expresso haveria de vir do inconsciente, este que dita muitas das minhas decisões e subjuga o centro do meu eu. Saída: Id. Destino: Construção do Ego. Assim, e não das costelas de Adão, nem de um bom trocadilho, nasceu o nome desse blog. E, de fato, ele faz as vezes de divã, onde tento organizar pensamentos, escrever sobre eles e descobrir um pouco mais sobre o destino dos meu vagões, sobre como se faz para reconstruir um ego multifacetado, dicotômico e esfacelado pelo tempo que não existe, pelo tempo que já passou e pelo tempo real, em que devemos seguir viagem sempre, mesmo às cegas, para não sermos atropelados pelo próximo trem que já apita atrás de nós.
Não sei até quando vou me sentir como apenas mais um passageiro do meu próprio trem. Às vezes me surpreendo com esse cansaço, quase um temor de me sentar à cabine do maquinista. Olho a paisagem pela janela de uma das cabines e vejo árvores, céu, pessoas e casas num borrão indistinto, como se estivesse passeando numa pintura de Monet, através de seus olhos tomados pela catarata. Vejo cor em algumas paradas. Noutras, o cinza domina o cenário com matizes de chumbo e sombreados melancólicos. Rio comigo mesma quando tais pensamentos tomam forma de palavras escritas. E penso que, a mim, não me basta ser apenas a maquinista desse trem, mas também alguém com dom para a pintura, que saiba manusear aquarelas, paletas e pincéis com desenvoltura estratégica para pintar as paisagens como melhor lhe convier.
Talvez tudo isso não passe de um bando de elucubrações inúteis, que vêm rondar o sótão da minha morada como corvos e pousar sobre meus ombros. Eu deveria saber que corvos, além de feios e agourentos, cagam. Portanto, não poderia deixar nenhum deles pousar em meus ombros. Afinal, dizer "xô" não é algo tão trabalhoso quanto limpar a sujeira dos pássaros da memória. Por outro lado, penso em quais partes de mim eu deveria renunciar para ser menos trem e mais maquinista, menos pensamento e mais ação, menos querer e sonhar e mais construir. Mas, a bem da verdade, ignoro se são "renunciáveis" as partes do eu que definem um indivíduo, sua essência e suas cores. Pergunto-me se, de renúncia em renúncia, não chegará o dia em que os contornos que definem a pessoa que eu vejo no espelho, vão se volatilizar até a transparência, até não haver mais contorno algum, só a essência, sem molduras. Como uma casa sem número. Ou um blog sem nome, nem URL.
Nesse meio tempo, ouço o vento soprar nas estátuas, o cantar distante de um canário e a água correndo devagar no leito de um rio. Fecho os olhos e sinto o cheiro da estrada de terra molhada de chuva, da fumaça da lenha queimada e de lençóis recém lavados, estendidos no varal. Timidamente, coloco o rosto para fora da janela e sinto a luz do sol de inverno, dourada e suave, tornar-se cada vez mais branca e escaldante à medida que o verão vem tomando seu lugar. Abro os olhos, temendo ver apenas um borrão da paisagem que me cerca. Mas seus contornos já vão se formando novamente, com vagar, mas persistentes. Não sei desenhar, nem pintar. Nunca soube. Então, nesse meio tempo, escrevo.
22 de novembro de 2010
cães, gatos e bonecas
Existe, no círculo de amizades e atividades comerciais onde trabalho, uma figura interessante. É uma balzaquiana bonita e atraente, que não revela sua idade em hipótese alguma, de estatura não muito elevada, mas sempre firme num salto doze, divorciada, dona de uma empresa em franco desenvolvimento, mãe de um adolescente que a respeita e venera, e, daí o motivo de estar em foco aqui, uma mulher que fala o quer, onde quer e como quer. Muitas pessoas falam o que querem, onde querem e como querem. Mas poucas têm um senso de humor afinado e, ao mesmo tempo, brejeiro dessa minha conhecida. Antes de passar adiante uma pérola que a ouvi dizer, é preciso conhecê-la e a algumas dilações convenientes.
Eu a apelidei, carinhosa e ironicamente, admito, de "boneca". Porque ela sempre usa vestidos justos e acinturados, muito bem alinhados, os cabelos pretos e curtos às vezes envoltos por uma faixa, uma pequena bolsa a tira-colo, maquiagem na medida ideal e um perfume marcante e envolvente. Ninguém mais no mundo deveria usar aquele perfume, a não ser ela. Tal essência é a sua marca registrada, inconteste e indelével. A "boneca", como a chamarei aqui, tem uma presença dominante. Quando chega num recinto vazio, logo o preenche por inteiro com sua voz de comando, seu andar ligeiro sobre os tamancos altíssimos, seu olhar perscrutador e indecifrável (ela tem os olhos mais pretos que já conheci. Olhos grandes, negros e que brilham muito), e uma audácia e coragem admiráveis. Imagine uma mulher pós-moderna, dona de si e dos que a rodeiam, com auto-estima tinindo, carreira brilhante, corpo esculpido em academia e liberdade plena. Imaginou? Pronto. Essa é a "boneca".
Em princípio, não senti muita simpatia por ela. A força daquela mulher, a ambição, a astúcia e a liderança dela faziam-me lembrar uma raposa esperta ou uma pantera à espreita. Felinos, para mim, com sua atitude independente, seu porte altivo e seu olhar de desdém, não são animais confiáveis. Daí minha paixão por cães. Submissos, brincalhões, carentes e babões, há cachorros que adoecem e até morrem na ausência de seus companheiros humanos, em oposição aos gatos, que valorizam muito mais o ambiente e o conforto onde moram do que seus "súditos" humanos. Americanos levam essa preferência por cães ou gatos tão a sério que perguntam, no início de um relacionamento, se o outro é uma "dog person" ou uma "cat person". Nossa preferência por felinos ou caninos parece revelar muito da própria personalidade do ser humano, levando-se em consideração o animal como gradiente. Lembro-me de Tereza e seu amor por Karenin, como exemplo. No livro, não posso imaginar Tereza se apoiando no amor por um gato para construir, como o fez com Karenin, dez anos de sua vida com Thomas baseados no tempo idílico da repetição em que vive o cão.
Não é que pessoas fracas prefiram cães, enquanto os fortes adorem gatos. Afirmar algo desse tipo seria de um determinismo anacrônico, irresponsável e surreal. Mas, quando repasso pela memória os donos de cachorros e gatos que conheço, vejo neles algumas características em comum que me levam a crer que humanos que precisam de atenção e de um olhar de credulidade, confiança e dependência pousado sobre eles, tendem a se apegar ao amor carente de um cão, ao passo em que pessoas com um estilo de vida mais independente e despojado, que não lidam bem com a carência afetiva e a constante necessidade de atenção do outro, tendem a preferir a personalidade volátil e desapegada do gato. Felinos são altivos e independentes demais para um dono que precisa da certeza e da lisonja que o amor incondicional de um cão pode lhe ofertar. Por isso, quando penso na "boneca", não consigo vislumbrá-la com uma coleira na mão, sendo arrastada por um beagle gorducho e barulhento pelas ruas da cidade. Na verdade, não faço a menor ideia se a "boneca" tem ou não animais de estimação. Mas, se tiver, algo no fundo das minhas entranhas me diz que seria uma gata siamesa esbelta e garbosa, cujos passos leves e elegantes pela sala ela nem ouviria. Ou um peixe beta num aquário de cristal, no máximo.
Depois de tantas dilações, volto à história da mulher a quem apelidei de "boneca". Em princípio, por me fazer lembrar um felino, ela não me pareceu confiável. Ao contrário, me inspirou antipatia e desconfiança. Mas, se a primeira impressão que eu tivesse dela fosse a de uma mulher insegura, carente, brincalhona e frívola como um fox terrier, talvez eu tivesse logo estabelecido laços de empatia com ela. E, talvez, como a um cachorro babão, eu não a tivesse respeitado. Mas, então, ela não seria a "boneca", não teria superado inúmeros obstáculos em sua vida pessoal e profissional e, o mais importante, não os teria vencido, tornando-se um exemplo de sucesso. Vejo agora que ela me intimidou com sua força, elegância e auto-confiança. Ou melhor, eu me senti intimidada, já que esta nunca fora sua intenção. Aos meus olhos (e o olhar constrói os pilares da realidade de cada um), ela era a gata altiva e segura de si e eu, o vira-lata acuado, desprezado e carente. Entendi, de alguma forma, que minha desconfiança não era necessariamente em relação a ela, mas a mim mesma. Em outras palavras, eu não desconfiava da "boneca"; apenas não confiava o suficiente em mim mesma para olhá-la nos olhos e me sentir em posição de igualdade (uma atitude bem canina, admito).
Hoje já não suspeito mais da "boneca", embora, sendo de mundos diferentes (ela à moda persa, eu, rolando no chão à cocker spaniel), não possamos, de fato, estabelecer uma relação intrínseca de amizade. Mas, acima de tudo, nutro um respeito profundo por essa mulher. Quando eu a via, olhava (com os mesmos olhos pidões de um lhasa apso) para o chaveiro que ela sempre carregava consigo. É uma joaninha de couro envernizado de vermelho, de tamanho médio, com dois brilhantes no lugar dos pequeninos olhos. Eu amei aquela peça no momento em que a vi. Não demorou muito para que eu, desprovida do orgulho e da elegância felina, logo lhe pedisse que me desse o chaveiro, já que ela tinha tantos outros, tão mais bonitos. Um dia, depois de muita insistência de minha parte, a "boneca" me prometeu que, quando trocasse de carro, me daria a joaninha vermelha. No fundo eu achava que ela estava tentando me engambelar, e logo tratei de ignorar minha obsessão pela joaninha.
Ocorre que a "boneca", muito amiga de minha mãe, ficou sabendo que eu andava passando por uns terremotos, com direito a pancadas de chuva e trovoadas em minha vida e, como faria qualquer cachorro assustado na mesma situação, pus o rabo entre as pernas e logo encontrei um canto do cômodo para me esconder. Quem conhece bem o esconderijo da minha alma pode até ouvir, de longe, o "caim, caim" triste dos ganidos que solto em madrugadas solitárias. Quando soube disso, a "boneca" sentiu-se pessoalmente aviltada. E disse à minha mãe que eu não poderia assumir tal posição derrotista. Claro que, para quem não está no olho do furacão, no meio da tempestade ou soterrado por escombros, fica muito mais fácil aconselhar o "derrotista" a levantar-se do chão, sacudir a poeira, rodar a baiana e se posicionar majestosamente diante da vida. O fato é que assim ela o fez. E, num impulso de generosidade e empatia, deu o chaveiro de joaninha a minha mãe, pedindo para que ela o entregasse para mim.
Quando pus as mãos no "presente", meus olhos marejaram. É difícil, ou melhor, "humanamente" impossível para um gato se livrar de seus pertences. Gatos podem até não delimitar seu território da forma típica como fazem os cachorros, mas valorizam a casa onde moram e não abrem mão dos brinquedinhos que seus donos lhes dão. Eu sabia que dar aquele chaveiro, um objeto de estimação, representava muito para a "boneca", assim como representou muito para mim. Hoje, a joaninha, feita símbolo sob a luz de uma metáfora sentimental, representa uma ponte, um elo entre essa mulher e eu. Quando minha mãe me entregou o chaveiro, disse que a "boneca" tinha dois recados para mim, naquele momento de turbulência que eu estava vivendo.
O primeiro, ouvi minha mãe dizer, era para que eu usasse a joaninha sempre, para me dar a sorte que deu a ela e me deixar "mais alegrinha", já que eu a queria tanto. O segundo recado é a razão pela qual eu havia dito, no início dessa história, que a "boneca" fala o que quer, onde quer e como quer, e ainda enfeita as palavras com seu senso de humor ao mesmo tempo afinado e brejeiro. O segundo recado dela, esse sim, me deixou alegre de fato, porque, na semântica torta da vida, suas palavras me fizeram rir de verdade: "quando o coração amolece, o cu padece". Pode não ser um ditado digno de uma mulher elegante como ela e talvez, na contradição implícita na imagem dela casada com a sua fala, residam toda a originalidade, graça e significado da coisa. Curioso. Não consigo pensar num ditado que expresse com igual força essa pérola da "boneca". E, o mais incrível, não vejo pessoa mais adequada para dizê-lo do que ela, que não se permite abater, e muito menos padecer, quando segue os ditames de seu coração felino, intrépido e guerreiro.
Não é que pessoas fracas prefiram cães, enquanto os fortes adorem gatos. Afirmar algo desse tipo seria de um determinismo anacrônico, irresponsável e surreal. Mas, quando repasso pela memória os donos de cachorros e gatos que conheço, vejo neles algumas características em comum que me levam a crer que humanos que precisam de atenção e de um olhar de credulidade, confiança e dependência pousado sobre eles, tendem a se apegar ao amor carente de um cão, ao passo em que pessoas com um estilo de vida mais independente e despojado, que não lidam bem com a carência afetiva e a constante necessidade de atenção do outro, tendem a preferir a personalidade volátil e desapegada do gato. Felinos são altivos e independentes demais para um dono que precisa da certeza e da lisonja que o amor incondicional de um cão pode lhe ofertar. Por isso, quando penso na "boneca", não consigo vislumbrá-la com uma coleira na mão, sendo arrastada por um beagle gorducho e barulhento pelas ruas da cidade. Na verdade, não faço a menor ideia se a "boneca" tem ou não animais de estimação. Mas, se tiver, algo no fundo das minhas entranhas me diz que seria uma gata siamesa esbelta e garbosa, cujos passos leves e elegantes pela sala ela nem ouviria. Ou um peixe beta num aquário de cristal, no máximo.
Depois de tantas dilações, volto à história da mulher a quem apelidei de "boneca". Em princípio, por me fazer lembrar um felino, ela não me pareceu confiável. Ao contrário, me inspirou antipatia e desconfiança. Mas, se a primeira impressão que eu tivesse dela fosse a de uma mulher insegura, carente, brincalhona e frívola como um fox terrier, talvez eu tivesse logo estabelecido laços de empatia com ela. E, talvez, como a um cachorro babão, eu não a tivesse respeitado. Mas, então, ela não seria a "boneca", não teria superado inúmeros obstáculos em sua vida pessoal e profissional e, o mais importante, não os teria vencido, tornando-se um exemplo de sucesso. Vejo agora que ela me intimidou com sua força, elegância e auto-confiança. Ou melhor, eu me senti intimidada, já que esta nunca fora sua intenção. Aos meus olhos (e o olhar constrói os pilares da realidade de cada um), ela era a gata altiva e segura de si e eu, o vira-lata acuado, desprezado e carente. Entendi, de alguma forma, que minha desconfiança não era necessariamente em relação a ela, mas a mim mesma. Em outras palavras, eu não desconfiava da "boneca"; apenas não confiava o suficiente em mim mesma para olhá-la nos olhos e me sentir em posição de igualdade (uma atitude bem canina, admito).
Hoje já não suspeito mais da "boneca", embora, sendo de mundos diferentes (ela à moda persa, eu, rolando no chão à cocker spaniel), não possamos, de fato, estabelecer uma relação intrínseca de amizade. Mas, acima de tudo, nutro um respeito profundo por essa mulher. Quando eu a via, olhava (com os mesmos olhos pidões de um lhasa apso) para o chaveiro que ela sempre carregava consigo. É uma joaninha de couro envernizado de vermelho, de tamanho médio, com dois brilhantes no lugar dos pequeninos olhos. Eu amei aquela peça no momento em que a vi. Não demorou muito para que eu, desprovida do orgulho e da elegância felina, logo lhe pedisse que me desse o chaveiro, já que ela tinha tantos outros, tão mais bonitos. Um dia, depois de muita insistência de minha parte, a "boneca" me prometeu que, quando trocasse de carro, me daria a joaninha vermelha. No fundo eu achava que ela estava tentando me engambelar, e logo tratei de ignorar minha obsessão pela joaninha.
Ocorre que a "boneca", muito amiga de minha mãe, ficou sabendo que eu andava passando por uns terremotos, com direito a pancadas de chuva e trovoadas em minha vida e, como faria qualquer cachorro assustado na mesma situação, pus o rabo entre as pernas e logo encontrei um canto do cômodo para me esconder. Quem conhece bem o esconderijo da minha alma pode até ouvir, de longe, o "caim, caim" triste dos ganidos que solto em madrugadas solitárias. Quando soube disso, a "boneca" sentiu-se pessoalmente aviltada. E disse à minha mãe que eu não poderia assumir tal posição derrotista. Claro que, para quem não está no olho do furacão, no meio da tempestade ou soterrado por escombros, fica muito mais fácil aconselhar o "derrotista" a levantar-se do chão, sacudir a poeira, rodar a baiana e se posicionar majestosamente diante da vida. O fato é que assim ela o fez. E, num impulso de generosidade e empatia, deu o chaveiro de joaninha a minha mãe, pedindo para que ela o entregasse para mim.
Quando pus as mãos no "presente", meus olhos marejaram. É difícil, ou melhor, "humanamente" impossível para um gato se livrar de seus pertences. Gatos podem até não delimitar seu território da forma típica como fazem os cachorros, mas valorizam a casa onde moram e não abrem mão dos brinquedinhos que seus donos lhes dão. Eu sabia que dar aquele chaveiro, um objeto de estimação, representava muito para a "boneca", assim como representou muito para mim. Hoje, a joaninha, feita símbolo sob a luz de uma metáfora sentimental, representa uma ponte, um elo entre essa mulher e eu. Quando minha mãe me entregou o chaveiro, disse que a "boneca" tinha dois recados para mim, naquele momento de turbulência que eu estava vivendo.
O primeiro, ouvi minha mãe dizer, era para que eu usasse a joaninha sempre, para me dar a sorte que deu a ela e me deixar "mais alegrinha", já que eu a queria tanto. O segundo recado é a razão pela qual eu havia dito, no início dessa história, que a "boneca" fala o que quer, onde quer e como quer, e ainda enfeita as palavras com seu senso de humor ao mesmo tempo afinado e brejeiro. O segundo recado dela, esse sim, me deixou alegre de fato, porque, na semântica torta da vida, suas palavras me fizeram rir de verdade: "quando o coração amolece, o cu padece". Pode não ser um ditado digno de uma mulher elegante como ela e talvez, na contradição implícita na imagem dela casada com a sua fala, residam toda a originalidade, graça e significado da coisa. Curioso. Não consigo pensar num ditado que expresse com igual força essa pérola da "boneca". E, o mais incrível, não vejo pessoa mais adequada para dizê-lo do que ela, que não se permite abater, e muito menos padecer, quando segue os ditames de seu coração felino, intrépido e guerreiro.
21 de novembro de 2010
presentes
Chuva torrencial lá fora, aqui dentro um calor abafado. Em minha saliva, uma sede grande por novas estradas, horizontes mais amplos e ensolarados, rumos mais meus. Penso. Para aonde fugir...? Ver Milene. Mas a moça mora longe, está cansada da labuta semanal e, às vezes, se esconde. Milene sabe, principalmente, quando precisa se esconder, para se resguardar, defenestrar antigas gavetas da memória e do sótão do dia-a-dia, onde habita o mofo que ela precisa limpar. Mas, ainda assim, encontro Milene. E reencontro, na poesia doce que só ela sabe fazer, um presente que escreveu há tempos para mim.
Então, surpreendida em meu casulo abafado, tenho um pouco mais de sorte, em plena maré de azar no jogo, no amor e na dor. Ganho um full house quando falo com Maíra, que também está longe daqui. Mas Maíra é montanha, um gigante valente em cada partícula doída de seu corpo nu, de sua carne exposta, da sua alma fatigada; ela sempre vem a Maomé. E me encontra, cava a terra ao me redor, quebra unhas e derrama sol no meu quintal. Maíra me diz que um bolo deve permanecer no forno o tempo necessário para que, só então, possa ser servido com gosto para quem aprecia e conhece um bom e genuíno quitute do gênero. Não, curupira, nem tudo na vida é uma receita de bolo. E, não, piá, bater, assar e servir um bolo não é tão simples quanto se pode pensar. Retire-o do calor antes do tempo, cozinheiro, e ele murcha. Retire-o depois, mestre-cuca, e ele esturrica. Vira pedra, estátua de Medusa. A gente é tudo bolo, de fubá, chocolate, banana, nozes ou maçã, assando lentamente, escondidos ou não, esperando o tempo certo para fazer parte da festa da vida.
Então, surpreendida em meu casulo abafado, tenho um pouco mais de sorte, em plena maré de azar no jogo, no amor e na dor. Ganho um full house quando falo com Maíra, que também está longe daqui. Mas Maíra é montanha, um gigante valente em cada partícula doída de seu corpo nu, de sua carne exposta, da sua alma fatigada; ela sempre vem a Maomé. E me encontra, cava a terra ao me redor, quebra unhas e derrama sol no meu quintal. Maíra me diz que um bolo deve permanecer no forno o tempo necessário para que, só então, possa ser servido com gosto para quem aprecia e conhece um bom e genuíno quitute do gênero. Não, curupira, nem tudo na vida é uma receita de bolo. E, não, piá, bater, assar e servir um bolo não é tão simples quanto se pode pensar. Retire-o do calor antes do tempo, cozinheiro, e ele murcha. Retire-o depois, mestre-cuca, e ele esturrica. Vira pedra, estátua de Medusa. A gente é tudo bolo, de fubá, chocolate, banana, nozes ou maçã, assando lentamente, escondidos ou não, esperando o tempo certo para fazer parte da festa da vida.
penso nos ares de Roberta
pisando pesado sobre
ladrilhos pretos, brancos não_
torta vai pelo caminho_
but she does it her own way_
e ainda que não bastasse_
ser amendoada_
cria algo dourado
palpável intocável
diz a isso
come and save me
se recolhe em
uma ostra de remédios
com óculo virtual
mas mesmo assim
complexa peregrina
presa ao chão
vejo duas gotas de mel
no chá das cinco
mais uma Coca-Cola,
please
do not disturb her
she's being Roberta
and that takes a lot of time
por Milene Portela
ladrilhos pretos, brancos não_
torta vai pelo caminho_
but she does it her own way_
e ainda que não bastasse_
ser amendoada_
cria algo dourado
palpável intocável
diz a isso
come and save me
se recolhe em
uma ostra de remédios
com óculo virtual
mas mesmo assim
complexa peregrina
presa ao chão
vejo duas gotas de mel
no chá das cinco
mais uma Coca-Cola,
please
do not disturb her
she's being Roberta
and that takes a lot of time
por Milene Portela
Mais presentes dessa moça, você vê aqui: http://papelpequeno.blogspot.com
17 de novembro de 2010
oitenta e três
A vida caminha, comigo em seu encalço, e levanta poeira. Sou poeira.
No arrastar do tempo, imprimo marcas em estradas por onde caminhei um dia, sabendo que hei de deixar rastros em trilhas que ainda visitarei.
Vida, trajetória e pó. Ela venta pelo meu corpo e pela memória, e leva consigo parte de mim, de sonhos insones que me acalentam. E assombram.
É tênue essa brisa, que traz saudades e faz renascer esperanças. Esperança para hoje, para amanhã, para ontem! Esperança de vida, de quietude e de menos ventania dentro de mim...
Sou pó e terra, sim, mas também um lençol d'agua, de um querer intenso, um manancial que deseja despertar desse sono dormente.
Rio fluido, prenhe de sonhos, sigo para o mar (que é para aonde seguem todos os rios...). O mar aberto da realidade da terra, do solo e do enraizar. E tento, assim, alocar em mim, pequeno e finito, sonhos contraditórios, de desejos opostos...
Na ambivalência intensa e solitária que sou, no avesso do meu poder (que é esse meu inquieto querer), os sonhos de uma vida pela qual passei (ou terá ela passado por mim...?), são consumidos, abafados e soterrados.
Não velejam, como deveriam velejar de vento em popa os sonhos, mas hibernam, no escuro das lembranças, na estagnação do pó, e no correr das horas.
Mas há orgulho inquieto em mim. Meu coração pulsa, o sangue jorra. Esperança! Plenitude! Amor! Eu clamo por eles, na ambiguidade que revelo ao mundo.
E, no sussurro da noite, sob estrelas que admiro e que também habitam essa alma, eu rogo, numa prece silente, em que escuto apenas o pulsar de meu coração, jovem, vivaz e tortuoso:
Que jorre vida em minhas veias e em meu espírito. Jorrem forças para a vida caminhar, e obstáculos ultrapassar.
E que, da raiz que sou, até as folhas por onde abro meus olhos para o horizonte, brote-me coragem para viver essa vida comprida, e sentir alegria, quase sempre sofrida, mas destemida.
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