16 de fevereiro de 2011

encruzilhada das palavras

As palavras podem ser um meio ingrato de expressão artística. Corrijo-me: a pretensão à qualquer talento artístico pode ser muito ingrata. Quando penso nisso, lembro-me de "Amadeus", do diretor Milos Forman, de 1984, ganhador de oito estatuetas douradas em Hollywood. O filme retrata dois personagens reais, o compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart e seu contemporâneo, Antonio Salieri. Longe de ser um relato histórico fiel, a obra de Forman mostra um Salieri contraditório, invejoso e mesquinho, principalmente quando o jovem Mozart, mimado, vulgar, obsceno, arrogante e passional, entra para a corte de Joseph II, Arquiduque austríaco, cuja atenção já favorecia Salieri no mundo da ópera.

"Amadeus" é brilhante porque não fala do "homem" Mozart, mas do "gênio" Mozart, em seu mais alto patamar. Por isso Forman se utiliza da figura de Salieri para narrar a história; é de um manicômio que o compositor nos apresenta a Wolfgang, cuja trajetória é contada em flashbacks. Para salientar toda a complexidade envolvida na personalidade de um gênio e virtuose, o diretor se aproxima da figura humana de Salieri - daí a licença poética para escorregar nos atributos históricos - e caracteriza Mozart como o espelho do talento descomunal que possuía. Não é acidental a escolha do diretor para o ator que interpretaria Mozart: o irrelevante Tom Hulce, cujo rosto o espectador esquece duas horas depois de terminado o filme, é ideal para reforçar a idéia de que o gênio tem amplitude e valor muito maiores do que o homem que personifica o virtuose. É redundante dizer que Wolfgang foi, enquanto personagem real, um homem infinitamente mais complexo na forma como é retratado em "Amadeus"; entretanto, a mensagem do filme é clara: biografia alguma poderia se comparar à magnitude da genialidade de Mozart. Por isso, a personagem de Salieri, aqui, é tão humana em suas idiossincrasias e pequenez: enxergando Wolfgang através dos olhos de Salieri, somos equiparados a este e, distanciados do virtuose, podemos contemplar a grandeza de Wolfgang, o gênio.

O filme percorre os trilhos do reconhecimento de Mozart na corte austríaca pelo viés da contradição. Enquanto Salieri afirma que a música de Wolfgang é divina, os cortesãos insistem em focar nos escândalos e  nas fofocas que o comportamento exótico do músico gera. Para Salieri, um compositor talentoso e altamente disciplinado, a única forma de aceitar o talento de um Amadeus que se senta ao piano e compõe de improviso a variação de um tema complexo que acabara de conhecer, é atribuindo-lhe a personificação de um anjo. Assim, é compreensível que o nosso mais que humano Salieri deseje ser um músico tão bom quanto Mozart - e com "bom" leia-se talentoso, inspirado, virtuoso, espontâneo, e não apenas disciplinado - para que ele possa, através de sua arte, alcançar o divino. O problema é que escapa à compreensão de Salieri o motivo pelo qual Deus tenha favorecido justamente Mozart, uma criatura tão vulgar e um artista tão pouco disciplinado para ser Seu instrumento na Terra. Da incompreensão nasce a inveja e, da inveja, a culpa. Salieri torna-se inimigo de Deus, Cuja grandeza vê evidente na obra de Mozart. Daí para a loucura, a vingança e o assassinato não custa muito.


Quando assisti a "Amadeus" pela primeira vez ele já era um filme antigo. Eu estava no primeiro ano de Faculdade e precisava fazer um trabalho de Filosofia. Provavelmente minha memória dilapidou-se com o tempo - afinal o ano era 1998 - mas o tema do tal trabalho de Filosofia não me vem à mente no momento. Enfim, o fato é que escolhi usar "Amadeus", que é de 1984, para um trabalho de Faculdade de 1998, de modo que as razões envolvidas para tal podem ser ignoradas aqui. Na época com dezoito anos, eu me encontrava numa situação em que talento, currículo e trabalho habitavam esferas completamente diferentes em minha vida, de modo que assistir a "Amadeus" rendeu muito mais do que um trabalho de Filosofia de primeiro ano de Faculdade.

Eu compreendia perfeitamente as idiossincrasias de Salieri, principalmente se me atrevesse a dar asas às minhas pretensões artísticas. Resumo da ópera: de onde venho, não há lugar para arte, nem vãs filosofias, apenas trabalho objetivo e pragmático, onde reinam calculadoras e taxas em boletos bancários. No lugar para onde fui imperam a disciplina das perguntas e respostas e da observação e, acima de tudo, a imparcialidade na transcrição das mesmas. Acontece que, entre o lugar de onde viemos e o lugar para onde vamos, normalmente está essa entidade que complica o cenário da ópera, que é o "eu" nosso de cada dia ou, se quiser mais material meditativo, o talento. No meu caso, entre vendas e reportagens estavam a subjetividade das palavras, a retórica, a contemplação dos indivíduos e da vida e a encenação teatral, ou seja, todo o supra-sumo do cool, que não dá um tostão furado.

Penso na história de Salieri e Mozart quando estou em algum tipo de encruzilhada com as palavras. Explico-me. O lado bom em não se ter sempre dezoito anos é que você sabe que realmente não vai ganhar dinheiro com aquilo que pensa que tem talento, até porque talento, currículo e trabalho habitam, de fato, esferas diversas da vida. Daí que se pode, por exemplo, publicar suas "pérolas" num blog, torcer para os fãs lerem e comentarem (por "fãs", compreendem-se familiares, amigos íntimos, colaboradores e eventuais admiradores secretos, mas se até Mozart tinha suas groupies...) e, ainda assim, trabalhar com algo respeitável e lucrativo, que não envolva as palavras "talento", "arte", "subjetivo" e "filosofia". Ademais, o tempo é realmente um bálsamo com propriedades de esparadrapo, que cobre o desconforto social que é ter uma formação acadêmica com a qual você não trabalha, em que nunca vai trabalhar e que não agrega valor algum à profissão que exerce no momento.

Estando as questões trabalho e currículo resolvidas, ainda que em termos, resta a questão "talento". Aí entram a tal "encruzilhada das palavras" e a história de Salieri e Mozart e a ingratidão de tudo isso. Comecei essa crônica exatamente por falta de inspiração, por uma vontade louca e corrosiva de escrever e a total inexistência do pelo que escrever, ou do por que escrever. Quando o trabalho tem uma função única em si e o currículo não tem função alguma, o talento - ou aquilo que você acredita ser o seu talento - é um pilar fundamental na arquitetura de toda a sua existência. Daí que, quando as palavras vão-se embora de mim, é como se as notas abandonassem um compositor. Por isso, na encruzilhada das palavras, lembro-me de "Amadeus" e da inveja que Salieri, no filme, tinha do gênio de Mozart, que produziu, em menos de trinta anos, mais de seiscentas obras.

Entretanto, não tenho ninguém para invejar; afinal, diferentemente de Salieri, que fazia da música seu sustento, não faço da literatura meu ganha-pão. Por isso, só posso esperar a inspiração voltar e, enquanto ela teima em viajar por outros vagões, levar uma vida "normal" de ex-professora-coordenadora-jornalista, pseudo-escritora e bussinesswoman-to-be. O problema em "caminhar" e ultrapassar labirintos de escolhas é exatamente esse. Quando se sai de um lugar, corre-se o risco de duvidar de quem você é a priori, exatamente pela contradição que se estabelece entre a origem, o destino e o "meio", que vem a ser, oops, você mesmo. Engatinhar é necessariamente possibilitar a caminhada. E caminhar é obrigatoriamente possibilitar a corrida. E a quem corre, dá-se asas. Voando, Ícaro vislumbra horizontes infinitos e assume, pensa ou sonha ter talentos, asas próprias. Mas tem asas de cera, com penas de pássaros. O final da história desse jovem, filho do construtor do labirinto, você conhece. A sensação de voar foi tão estonteante para Ícaro, que o rapaz se esqueceu da recomendação de seu pai; ganhou cada vez mais altitude e aproximou-se cada vez mais do sol, cujo ardor derreteu-lhe as preciosas asas de cera. Bem, ao menos não morreu confinado à Ilha de Creta, mas em liberdade, no mar. Meu consolo para tudo isso é que, comparáveis a figurinhas tais como Mozart, Goethe e até um mitológico Ícaro, só eles mesmos. E dá-lhe Freud.

15 de fevereiro de 2011

re-partida



lua enchendo no céu
subida escura de morro
cheiro de terra orvalhada
lembranças frescas num jorro

regalo e leito ofertados
palavras cruzadas com sabor
um horizonte anil descortinado
promessas feitas com langor

vento soprando nas narinas
aroma distinto de mangue
luzes apagando ao longe  
alma ficando mais exangue

silêncio da noite embalando
vazio dorido da partida
desejo urgente de retorno
por uma saudade desmedida

11 de fevereiro de 2011

sobre (s)saltos


Vida a gente leva muito mais no susto e no improviso do que na calmaria da certeza e na bonança dos sentimentos. Isso eu descobri há algum tempo, no olho do furacão do mundo, quando uma onda de desavisos centrifugou meus planejamentos, desejos e ambições. No estado de suspense atávico com que o inesperado selou-me a percepção, não havia diferença relevante entre mim e Dorothy, sendo transportada para o maravilhoso mundo de Oz, na primeira classe de um tufão, o universo conhecido inteiro da menina girando em seu redor, dando um adeus enfurecido para a fazenda no Kansas. Quando o assombro chega para ficar, é compreensível que se comece a ponderar a existência do destino, por exemplo, ou o poder do cosmo, criança caprichosa, a brincar conosco de teatro dos bonecos e soprar as linhas de nossas vidas como bolhas de sabão. Blup! Vão-se as bolhas, ficamos nós, aparvalhados com o descabido que é traçar metas, colecionar valores, almejar situações e ver tudo reduzido a um tombo, à sensação frustrante de que cavalgamos uma montaria sem rédeas, nem cabresto. 

Dia desses decidi abandonar a leitura por um tempo para assistir a um filme que estreava num canal de TV por assinatura. Às vezes até o seu livro preferido acaba sendo preterido, o que parece ser uma sina a qual nada, nem ninguém escapam. Após mil reviravoltas na vida da mocinha, o galã reconquistado, lágrimas derramadas e reencontros no aeroporto, a protagonista afirma, no momento de reflexão do filme de gênero não-acredito-que-deixei-meu-livro-por-isso: "não é maravilhoso que a vida seja um desconhecido constante e a gente não tenha controle sobre o mistério do amanhã?". Eu seria no mínimo desleal comigo mesma se dissesse que achei a epifania da mocinha uma pérola. A bem da verdade, a frase fez meu sangue talhar nas veias. Quer dizer, não é nada maravilhoso tomar um susto atrás do outro na vida. E não ter controle algum sobre o amanhã não é apenas misterioso, mas assombroso. Não seria simplesmente balsâmico se a vida fosse tão previsível quanto um desses filmes de sessão da tarde?

Mas então lembrei-me de que não gosto de ser contraditória. Pelo menos não a ponto de me sentir uma fraude em meus próprios domínios. Sempre escrevi sobre a necessidade da surpresa na vida, das curvas na estrada, das ondas no mar, do insight no consciente. Mudanças de cenário, aventurar-se pelo desconhecido e quebrar paradigmas são símbolos que utilizo para dizer que, sem o elemento-surpresa, o roteiro de vida que escrevemos tornar-se-ia tacanho e estupidamente tedioso, de forma a tirar de nós a curiosidade e o empenho de chegar ao final da história.

A cada vez que tenho uma inspiração para escrever, ou sempre que me foco numa determinada contradição para tentar desvendá-la e resolver a mim, mais enraizada se torna minha certeza de que nossa reação à qualquer circunstância é o elemento-chave para um desfecho positivo ou negativo no script. Ansiar por uma vida monótona, sem o improviso musical que ela mesma realiza, é ingênuo. Eu sei disso, você sabe disso, o investidor da Bovespa sabe disso. Assim, não é o improviso que arruína e assombra, mas nossa postura diante dele. O novo pode ser processado como surpresa ou susto. É incrível o que a conotação pode fazer às palavras. E ainda mais incrível como as palavras orientam a história de cada um. Para isso, cabe a nós ter ouvidos vaginais, que acolham e se maravilhem com as palavras e, através delas, definam uma visão otimista ou pessimista com relação ao estímulo externo.

Um susto é desgastante em inúmeros níveis do corpo e da consciência. A descarga de adrenalina no sangue faz com que o cérebro produza um hormônio denominado cortisol, e esta substância baixa o nível de serotonina livre nos neurotransmissores. Em outras e mais assertivas palavras: você toma um susto, seu corpo leva um choque e seus miolos começam a fritar em meio ao stress, à disforia e à instabilidade de humor. Não  falo do "susto" relacionado a fobias, ao pânico e ao sobressalto. Embora esse tipo de abalo seja igualmente assolador (imagine aqui as mazelas da vida urbana, como a criminalidade e os altos e baixos da economia), refiro-me ao susto atado à decepção, à comoção das expectativas não realizadas e ao recalque dos desejos contidos. Este parece-me um espavento de proporções ainda mais danosas porque, ao contrário do medo que nos ronda em sociedade, e que para o qual existe certa preparação psicológica, não há qualquer defesa legítima que se possa usar contra a desilusão, o logro e o desengano. Imagine que a vida seja um roteiro de cinema e nós, os espectadores-protagonistas. Confrontados com sustos - leia-se decepções - sucessivos, até o final da sessão, não seria "espantoso" que fôssemos indicados ao Troféu Framboesa da temporada. Ou então, que desistíssemos da co-autoria, da encenação e, principalmente, da direção desse roteiro. Aí, o assustado vira o Espantalho, amigo da Dorothy, que desejava um cérebro a todo custo e, pela crença na ausência do mesmo, passava cada hora produtiva de sua vida num milharal decadente, abandonado a corvos e a espantalhos.

Se o susto causa tamanho transtorno emocional, a surpresa é aliviante, como um bafejar de ar fresco no calor soporífero do meio-dia. A surpresa dilata-nos as pupilas de curiosidade, aumenta o batimento cardíaco de excitação, faz as bochechas corar e mantém o cérebro mais atento, diferentemente do estado de letargia e marasmo em que é mergulhado numa vida de rotinas vãs, ausente de sentido e de deslumbramento. De "surpresa" chamo o abraço de mãe, quando se esperava uma reprimenda; o reencontro com um velho amigo, quando já se planejava a solidão; o sorvete na praça, com direito a beijo gelado, quando se premeditava um sábado em casa; a viagem de última hora para uma praia desconhecida, quando já se havia desistido de conhecer novas paragens; o diálogo maduro com o filho, quando ainda se pensava que ele era jovem demais; a coragem para recomeçar, quando a acomodação já fincava raízes; a honestidade crua e os olhos nos olhos, quando já se havia desistido de tanto jogo de sedução barato; um broto de amor no peito, quando o coração já estava estéril e vazio; um encontro com alguns poucos amigos no dia do aniversário, quando se imaginava ficar mais velho na companhia do Faustão.

Entretanto, como disse anteriormente, a conseqüência de um fator externo sobre a vida e a forma como aquele virá a nos impactar dependem fundamentalmente da maneira como reagimos a ele. Os exemplos que citei de surpresa têm conotação positiva apenas porque seriam surpresas agradáveis para mim e porque, no final e ao cabo, representam mudança de rotina, investimento pessoal e uma posição receptiva em relação ao outro. Imagino que para aqueles que apreciam a vida regrada e rotineira, e que estão numa zona de conforto de auto-suficiência, minhas "surpresas" seriam encaradas como tenebrosos "sustos". Por outro lado, pessoas que não valorizam tanto suas expectativas e ambições também não devem se assustar tão temerariamente quando um desejo frustrado vai para os porões do inconsciente. É sempre a mesma velha história da dualidade das coisas: "you say tomatoe, I say tomato..."

Há uns dias, conversando com um amigo de Belém, ficou claro para mim que só se assusta quem quer, ou quem não se previne. Ele tem uma filha de 14 anos, que vive com a mãe, e não vê a menina compartilhar muitos de seus valores e de sua personalidade. Como mora distante da filha, ele parecia especialmente saudoso no dia em que conversamos. Perguntei-lhe se vinha mantendo contato constante com a menina, ao que meu amigo se esquivou constrangido. Então me respondeu: "Sim, a gente conversa, mas ela é distante de mim. Aprendeu cedo a blindar seu coração. Mas é até bom; a vida não vai ser protetora para ela, então é melhor que esteja fechada. Assim, sofre menos". Meu amigo joga no time dos que esperam, apostam, tomam sustos e nem sempre alcançam. Sua filha, já antecipando toda a dor envolvida numa relação com pais separados, não nutre expectativas como o seu pai. Ou talvez até espere, mas não aposta. Assim, não toma sustos. Quanto a alcançar, acredito que, nesse mérito, estejamos todos nivelados, seja para uma surpresa, para um susto ou para a horizontalidade da vida: um dia é da caça, o outro, do caçador.

a terceira condutora

Voltei da praia com as pernas latejando da corrida na areia. Meu corpo era uma massa pegajosa de suor e sal, mas o cheiro de mar, de liberdade e de identificação não me permitia sentir a exaustão. Meu sobrinho tinha a garganta dolorida e febre alta. Mais do que óbvio que havia um anti-térmico, três tipos de anti-inflamatórios e um antibiótico em minha mala. Bom para ele, que sarou da noite para o dia. Mal para mim que, longe de casa, ainda me pego transportando frutos de uma árvore por demais frondosa, deveras distinta dos ipês delicados que gosto de fotografar.

Enquanto esperava para tirar a temperatura de meu sobrinho - e ter certeza de que melhoraria e não herdaria uma leve gastrite devido à prática ilegal da Medicina - vim aqui no Expresso, ver como andava a estação, a quantas iam os passageiros. Havia uma postagem nova, que poderia muito bem ter sido minha:

http://escaloalfabeticas.blogspot.com/2011/02/me-diz-o-que-e-sufoco-que-eu-te-mostro.html

Franzi as sobrancelhas e ponderei se o sol carioca poderia ter cozido meus miolos, de maneira a me fazer esquecer os textos que eu mesma escrevo. A crônica vinha ilustrada com uma fotografia evocativa de estrada de terra, cercas e um casal distante, a moça a segurar uma sombrinha colorida sob o sol. Aquele era o tipo de retrato com o qual ilustraria uma crônica de minha autoria. Até a formatação do texto poderia ter sido minha: parágrafos bem pontuados, corpo justificado, estrutura de jornal. Àquela altura, a surpresa havia tomado conta do meu ânimo de tal maneira que simplesmente me esqueci de meu sobrinho e do banho que eu deveria tomar.

Tudo aconteceu muito rápido, claro. Uma impressão do olhar que dura frações de segundos mas que, em retrospectiva contada em prosa, parece uma doce eternidade. Eu sabia que o texto não poderia ser de Ivy, a moça que vem escrevendo por aqui há umas duas semanas; Ivy mescla no mínimo três cores em cada postagem, tem sempre uma introdução antes de ofertar sua poesia e usa fotografias pequenas, justificadas à direita. Então vi, no espaço que lista as "maquinistas" do Expresso, um nome misterioso, suave, feminino, até sensual: "Miss P." Meu coração falhou três batidas e só então, na embriaguez da surpresa, fui de fato ler a crônica. Também ela poderia ter sido minha, mas era melhor por muitas razões: é um texto fluido e enérgico, que quebra a cabeça do leitor mas que também brinca de esconde-esconde com ele. Aquelas linhas só poderiam ser da Mi, minha amiga dos tempos do colegial, a poetisa que eu sempre quis ser, a "baixinha" cuja coragem para peitar gigantes sempre me encantou, Milene Portela.

Ela já teve o seu "malagueta e morfina" que, depois, virou "papel pequeno". Hoje escreve para uma penca de blogs, o que me fazia cerrar os punhos de ciúmes. Eu já havia convidado Milene para dar umas pinceladas nesse velho trem de ferro duas vezes. E nada. Sempre ocupada demais, com a cabeça a mil ou o coração a zero, mitigando mistérios e saudades de si mesma e ruminando o tempo como só ela é capaz de fazer. Quando Ivy embarcou por aqui, enviei o terceiro convite para a baixinha. Até que ela tentou escapar da espiga de milho, aqui, escrevendo para mim a seguinte mensagem: 

"Hey ya, como andam as coisas por aí? Então, vi que você me mandou um convite para contribuir. Roberta, agradeço muito mas, como dizer, vejamos, eu estou na fase baixa da montanha russa, você me entende? Ando levando uma vida sem graça, sabe? Às vezes triste, às vezes apática, sem vontade de conversar, ouvir, que dirá escrever... É uma fase na qual as esperanças ficam tipo as pimenteiras aqui em casa: murchinhas... Obrigada, Beta, de coração, mas não ando me sentindo bem nem forte para nada... Desejo muito sucesso, sorte e luz no seu projeto com Ivy, ok? Estou torcendo por você, como sempre. Grande beijo e desculpa decepcionar".



Li a mensagem, suspirei e tive ganas de ir ao apartamento sem ar-condicionado de Milene só para dar uns bons petelecos nela, que baixinho tem mais é que tomar peteleco mesmo (e essa vai pra Ivy, também). Eu compreendia perfeitamente a fase "leave me alone" da Mi, só não aceitava que ela se escondesse do seu maior talento por causa de umas pimentas murchas. Para mim, a coisa funciona no sentido contrário: na fase baixa da montanha russa, levando a mais sem graça e sem sentido das vidas, escrever é o que me mantém viva e sã. Verborrágica? Um pouco. Catártica? Bastante. Prolífica? Bagaraio. Uso a derrota, a decepção e o torpor do dia a dia como sementes para a poesia, a prosa e muitas crônicas. Com os contos é um pouco diferente. Escrevo sobre alguém que nunca fui, ou alguém que gostaria de ser.

Então o convite virou ultimato, mandei uma meia dúzia de jagunços para o Flamengo, fiz chantagem sentimental e... voilá! Numa passada rápida pelo Expresso, depois de um dia perfeito de praia, encontro Milene, a Miss P. que, espero, vai prosear muito por aqui daqui para frente. Ela disse que produziu sob pressão, que a persistência dela comigo é uma baita prova do quanto gosta de mim (alôôô? E a minha persistência em você, cara-pálida?), que foi um absurdo retirá-la das masmorras da auto-piedade para vir brilhar aqui, no blog mais bem sucedido da paróquia. Reclamou, rosnou, ciscou um bocado e fez o que faz de melhor: escreveu uma crônica reflexiva, dolorida, pungente e, ainda assim, fluida e atual. Não tem jeito. A gente pode fugir de muita coisa, mas não do chamado da pena, da inspiração e, o mais relevante, do talento.

Então, agora, estou satisfeita. Param por aqui meus truques de poeta órfã e toda a chantagem emocional que fiz com Milene. Somos três a conduzir o Expresso daqui para frente. De mim e de Ivy falei  aqui:

http://escaloalfabeticas.blogspot.com/2011/02/sob-nova-conducao.html

Milene já apareceu em alguns vagões, noutras veredas:

http://escaloalfabeticas.blogspot.com/2010/09/little-miss-sunshine-vulgo-milene.html

http://escaloalfabeticas.blogspot.com/2010/09/little-miss-sunshine-vulgo-milene.html

http://escaloalfabeticas.blogspot.com/2010/10/eritrinamigas.html

Pois é. Sou fã incondicional dessa capricorniana orgulhosa, que compra briga pelos amigos, morde a escória do mundo se for preciso para defender seus valores, é arquiteta, professora de inglês e poeta. Milene nasceu na cidade que é o segundo melhor clima do mundo, a 40 quilômetros da minha, que dizem ser o quarto. Ela é minha primeira melhor amiga e uma afirmação desse calibre só me permito fazer porque não vejo Milene há quinze anos mas, quando nos esbarramos pela loucura digital das redes de relacionamento, é como se fôssemos colegas de quarto. Ademais, essa menina linda, sósia de Rachel Weisz (embora ela não o admita), um metro e cinqüenta e sete de genuína grandeza, força de caráter e disposição para bater, lê a mim à distância, como eu, a ela. E isso é intransferível.

Sinto-me acuada no meio de Milene e Ivy. As duas mal alcançam meus ombros mas, na guerra da vida, são infinitamente mais intrépidas, guerreiras e focadas. A Ivy, que curte esse lance de zodíaco, diz que é por causa de nossos signos: ela, leão. Milene, carneiro. Eu, caranguejo. Aff! Enfim, o que não tem remédio... Então é isso. Agora seremos ß, Ivy e Miss P. Acho que formamos uma trilogia ímpar. ß no alto da serra, Ivy lá na ponta do país, Miss P. no nível do mar. Somos física, social e psicologicamente distintas mas, quando pegamos papel e caneta - ou quando papel e caneta nos pegam - somos a mesma mulher; a mulher que habita muitas em si, o olho do mundo, o elemental elementar que insistimos em buscar, seja na serra, seja no sul, seja no mar. Bem vinda, Mi. Sem você, estava faltando um pedaço. Sem você, a primeira passageira cativa desse trem, não haveria sucesso, sorte e luz que bastassem. Porque certas coisas só têm valor agregado quando divididas com certas pessoas.

ß, Ivy e Miss P. Não, ela não é pinguça.

10 de fevereiro de 2011

Conversando com Roberta Rohen: Ciranda, Beta.

Não é só pra ela, mas é principalmente pra ela. É pra todos (na verdade, isso é mais coisa que atinge todAs) que ainda não descobriram esse véu, que ainda não descobriram que essa tal serenidade que lhe é intrínseca não é acomodação, é equilíbrio; que ainda não descobriram que essa tal força que lhes é sempre criticada não é inconseqüência, é ousadia; que essa tal teimosia que lhes é colocada como doença é vontade indômita de ser menos infeliz, de ser até, poxa, feliz. É pra essas mulheres que ficam caçando bem pra fora delas tudo com o que sonham, tudo o que mais desejam, tudo o que mais admiram, giram pra tantos cantos que vão sempre pra tão longe de si, pra tão longe de tudo o que já fazem real tão perto, tão certo. Elas têm o dom de construírem-se e reconstruírem-se, de tecer feitos mesmo incríveis, como até, poxa, outros seres lindinhos que saem de si, mas magicamente fecham seus olhos pra obviedade mais constante: o castelo, o templo, a árvore adorada em meio ao deserto, todas as fitas mil já estão em seus cabelos, coloridas. Como pode? É como quando naquela correria, naquele nervoso constante, naquele acúmulo de informações: dialética, carnê das Casas Bahia, eleições, condomínio, enchente, pontas duplas, goteiras, bateria que acabou, mãe que vem pro almoço, comprar presente pra sobrinho, dialética, dialética... e de repente você acha que perdeu o pente, corre pela casa atrás daquele pente, como pode sumir assim aquele pente, e você olha besta pra si e vê o pente na sua mão. Quem nunca fez isso? Tem gente que faz com a própria alma.


Ciranda Beta, nessa roda de não se querer,
Sem saber-se borboleta
Gira e volta Beta, em seus arredores
Farta-se do que de si haveria de amar:
Ciranda, Beta, que essa é sua faceta.

Ela roda ventos e mares,
Aos montes com seus desejos
Prende-se à terra de não lhe pertencer,
Ela roda quereres mil de se fazer
Em cantos e encantos mil
Ciranda Beta pra longe de seus ensejos.

Carrega ela a dança quando
Da leveza sua se esquece 
E passar a cirandar pra fora de si
A buscar, tola, coisas de dentro de casa
Pelas calçadas e construções,
Ciranda Beta, ergue da busca vã uma prece.

Brinca de falar sobre o medo, Beta,
Diz-se da eternidade não mais seus olhares,
Mas o torpor de deuses que não dançam
Ela faz lápide de seus lábios,
Faz cárcere do que lhe são mãos e pés,
Ciranda Beta, faz morada pra longe de seus lugares.

Beta quer e vive a querer-se 
Consagra o rosto seu em cada vontade
As vontades de Beta são todas de si,
Curva e mais curva ela faz a se buscar
Num desencontro constante
De quem ignora que já está ali.

Ciranda, Beta, ciranda pra perto,
Roda pra fora do que te rodeia,
Que pra fora daí é pra dentro de ti.